Entrevista Fernanda Muniz

5/12/2018

 Bailarina desde os 7 anos, Fernanda Muniz iniciou a carreira ainda pequena e aos 20 anos, quando pensou que a carreira artística ficaria em segundo plano, iniciou os estudos em canto e dança, passou nos testes de "Wicked" e desde então emendou um musical no outro. Atualmente integra o elenco de "O Fantasma da Ópera" e contou aqui no Backs sobre a sua vida e trajetória nos palcos!


Fernanda, conta um pouquinho da sua trajetória artística pra nós? 
Fernanda: Comecei a estudar dança aos 7 anos. Fiz ballet, jazz, sapateado, dança do ventre, country, hip hop e circo. Participei de dois musicais infantis como bailarina e atriz, Barney e seus amigos e O Brilhante Mágico. E com 17 anos, fui assistente de palco do Programa Bom Dia & Cia com Patati Patatá no SBT. Com 19 eu comecei a faculdade e a carreira artística passou a não ser prioridade. Apesar disso, com 20 anos, surgiram as audições para o Wicked, e depois de ter passado, confesso que a vontade de trabalhar com arte só aumentou. Comecei a estudar canto e teatro, e do Wicked emendei Voices Of The Amazon - Londres, A Pequena Sereia e agora, O Fantasma da Ópera.

 

Você está no elenco de “O Fantasma da Ópera”, um dos musicais mais emblemáticos das últimas décadas. Fale um pouco sobre o processo das audições e como foi receber a notícia da sua aprovação como Meg?
Fernanda: Eu sou muito fã de O Fantasma, e quando soube que viria para o Brasil, eu saí dizendo pra todo mundo que eu iria fazer Meg (risos). Isso nunca aconteceu antes, eu sou o tipo de pessoa que tem dificuldade para acreditar em si, mas eu falava com tanta certeza, que acho que não dei outra escolha ao Universo/Deus. 
Bom, eu mandei material, me chamaram pra audição, o único problema é que os horários batiam com os ensaios da Pequena Sereia. Fiz 30min de teste no primeiro dia, lembro que dancei duas vezes a sequência clássica para a coreógrafa analisar e precisei sair antes do teste acabar. Fui embora meio angustiada porque não tinha conseguido terminar o teste, e porque ninguém tinha me ouvido cantar. Fui para o ensaio da Sereia e no fim do dia, recebi uma mensagem do produtor de elenco dizendo que eu voltaria no dia seguinte. As esperanças voltaram com tudo nessa hora, só que mais uma vez eu teria apenas alguns minutos de teste. Mesmo assim fui para o teatro, mas nesse dia o teste anterior acabou atrasando, e adivinhem, fui embora sem se quer ter feito o teste. 
Eu lembro que eu entrei no Uber super triste e comecei a orar, orei para que Deus me fizesse entender que talvez não fosse para mim essa oportunidade, agradeci e me lembrei do quanto eu estava feliz por estar no Sereia. Às vezes nós precisamos parar e só observar o quanto somos abençoados, às vezes queremos abraçar o mundo, ganhar tudo, mas não é assim. Os sonhos mexem muito com a gente, mas precisamos ter maturidade e estar preparados para ouvir “nãos” também.
Enfim, passaram duas semanas e recebi outra ligação dizendo que eu voltaria para a final, que a produção iria oferecer Workshop para as bailarinas e que eu receberia o material de Meg para estudar. Na hora eu quase infartei, foram muitas emoções para um coraçãozinho só. 
Foram duas semanas conciliando Workshop, ensaio do Sereia e a faculdade.
Para a minha felicidade, o teste final foi marcado num dia que eu não tinha nada. Fiz o teste do começo ao fim, e finalmente pude cantar. Saí de lá com a cabeça pilhada, mal consegui dormir nesse dia e nos dias seguintes. Eu tentei não pensar a respeito até que recebesse a resposta, mas é muito difícil.
Acho que depois de umas duas semanas, recebi a notícia. Na hora comecei a rir e a chorar ao mesmo tempo. Mandei uma mensagem pra minha mãe e irmã no WhatsApp assim: “😭😭😭 ME AJUDEM, EU VOU MORREEEERR!! SOCORROOO”
Minha irmã me ligou desesperada, quase matei ela de susto! 
E sobre receber a notícia de que eu seria a Meg, precisei confirmar umas três vezes com a produtora, “eu sou a Meg mesmo ou sou cover? Não tô entendendo”.

Quais os desafios em fazer sua primeira personagem fixa? Como estão os ânimos para essa temporada?
Fernanda: Para quem já foi swing, ter uma personagem fixa é estar no céu. Poder se dedicar por completo a ela, ser dirigida e ensaiada várias vezes até se sentir segura, é muito bom. Acho que o único desafio é não deixar o show cair no automático, devido à repetição. 
Meu coração dá pulos de alegria por estar vivendo esse sonho. Toda vez antes do show começar eu agradeço por poder fazer o que eu amo e ser tão feliz. Eu amo estar no palco, mesmo cansada e com as dores de sete shows na semana, quando a música começa não lembro de mais nada.

Os ensaios começaram quando você ainda estava em cartaz com “A Pequena Sereia”, como foi conciliar esses dois trabalhos?
Fernanda: Foi difícil, mas eu queria muito conciliar os dois musicais. 
A Pequena Sereia me fez crescer muito, foi a primeira vez que eu substituí cantoras, um desafio que eu superei ao lado de pessoas que me deram todo o apoio e carinho. Eu queria aproveitar ao máximo essa oportunidade, conciliei por um mês o show com os ensaios de O Fantasma. Um mês sem folga, saindo de um trabalho e indo direto para o outro. Foi cansativo, ficar saudável foi o maior desafio. Eu procurei me alimentar e dormir bem, tomei alguns remedinhos e vitaminas, e tentei ficar mais quieta (quem me conhece sabe que sou serelepe e ligada no 220W, mas nesse período, precisei poupar energia).

Seu primeiro grande trabalho foi em “Wicked”, um grande sucesso da Broadway que também arrebatou o público brasileiro. Como foi fazer parte desse fenômeno de público?
Fernanda: Wicked mudou muita coisa em mim e na minha história. Eu entrei uma Fernanda e saí outra, cheia de sonhos e de coragem. 
No começo foi bem difícil, foi meu primeiro trabalho, um monte de gente experiente a minha volta e eu bem perdida, sem noção da grandeza daquilo que estava fazendo. 
Eu era swing de bailarina, quando não estava no palco ou assistindo o show da coxia, estava pelos corredores cantando, dançando e reproduzindo todas as cenas.
Foi tudo muito especial. Tenho que agradecer a todos os artistas que me inspiravam diariamente, e agradecer a toda a companhia que aguentava minhas cantorias porque eu, realmente, não dava sossego. 

Você fez o “Voices of Amazon”, um espetáculo que viajou diversos países apresentando a cultura brasileira em um elenco que não era composto apenas por artistas brasileiros. Como foi essa experiência tão peculiar?
Fernanda: Foi uma delícia. Conheci lugares lindos (Londres, Singapura e Moscou), pude assistir vários musicais em Londres, trabalhei com profissionais da dança que me inspiraram a vida toda e ainda levei um pouquinho do Brasil comigo, já que fomos em cinco brasileiros.
Preciso ressaltar que, nesse trabalho, tive a oportunidade de dançar e ser dirigida por bailarinas (Pietra Mello-Pittman, Nathalie Harrison, Hannah Grennell) do Royal Ballet de Londres, uma Companhia que desde pequena eu era fascinada e sonhava fazer parte. É muito engraçado como nossos sonhos se transformam, eu nunca tive condições de integrar a Companhia, mas só o fato de ter trabalhado com algumas das bailarinas, já encheu meu coração de alegria e me deixou completamente realizada. 
Me lembro do dia que umas delas, depois de ter assistido meu solo, disse que me adorou e se arrepiou enquanto eu dançava. Juro, eu fiquei com aquela cara de paralisia tentando processar a ideia de que estava sendo elogiada por uma das minhas inspirações. Foi tudo muito mágico.
O show em si, era um espetáculo de dança contemporânea e todos os bailarinos cantavam. Nós, praticamente, não saíamos do palco. Acho que nunca fiz algo tão difícil fisicamente falando.

Em “Wicked” e “A Pequena Sereia” você foi  Swing.  Conte para nós como é exercer essa função tão importante dentro de um espetáculo: Como é a rotina de ensaios para aprender tantos  plots diversos?
Fernanda: Ser swing é muito difícil, você precisa substituir um número considerável de pessoas, isso sem ensaiar quase. No Wicked eu só cobria bailarinas, então precisava aprender a coreografia de cada uma delas, mas todas elas cantavam a mesma linha vocal. Já na Pequena Sereia, por exemplo, eu substituía oito meninas, e cada uma cantava uma linha vocal, cada uma tinha uma fala, uma personalidade, uma coreografia e diferentes marcações cênicas. Você precisa decorar rápido e ser versátil.
Eu amo ser swing, eu gosto do desafio de decorar o show de várias pessoas, de cada dia ser uma personagem e da possibilidade de ver o show de ângulos diferentes.
Mas também preciso dizer que é bem estressante. Mesmo com o show decorado, quando você substitui, você precisa ter dez olhos e dez ouvidos, precisa ser rápido para lidar com um figurino que atrapalha a movimentação, com uma luz forte que dificulta enxergar as numerações no chão, e também estar atento para evitar a famosa “crise de identidade”, que é quando você confunde quem você é no show (risos). 
Sobre como decorar, acho que cada pessoa tem um método diferente. Eu, por exemplo, estudo as cenas pelas gravações do ensaio e por anotações nos mapas do palco. Na hora do ensaio de elenco, eu prefiro ficar sentada observando e anotando, só levanto quando vou aprender coreografia nova. Daí antes de começar o ensaio de elenco, ou quando acaba é que eu ensaio e fico repassando tudo.
Na Pequena Sereia, nós swings chegávamos antes e saíamos depois do elenco e ficávamos treinando juntos, isso foi muito bom e tornou o processo mais fácil.

Qual conselho você daria para aqueles que querem seguir carreira artística?
Fernanda: Amar o que você faz é o ponto inicial. Quando você ama, você tem disposição pra não desistir de tentar mesmo quando tudo dá errado. 
Muita coisa deu errado pra mim, já pensei em desistir várias vezes, já ouvi que eu não tinha talento, que eu ia passar fome se quisesse viver de arte.
Mas enfim, acho que o conselho seria: ame o que você faz, se dedique para fazer isso bem, acredite em você mesmo quando você for o único, não desista com os “nãos” que aparecerem, e aproveite ao máximo quando a sua oportunidade chegar.

 

 

 

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