#Crítica Tudo ao Contrário 3

18/4/2018

Imaginem dois homens entoando as principais canções do musical “Hairspray”, apaixonados, divertidos, e falando sobre as dificuldades de um gordinho encontrar um amor nos dias de hoje, onde o tanquinho é quase uma “obrigação”. Ou imaginem duas mulheres, da Savana Africana, cantando apaixonadas o grande clássico de “O Rei Leão”, a bela canção “Essa Noite o Amor Chegou”. Conseguiram alcançar quão divertido isso seria? Não! Pois foi exatamente isso que a plateia lotada do Teatro Riachuelo Rio presenciou na noite dessa terça-feira (17), com a terceira edição do espetáculo “Tudo ao Contrário”!

 

Inspirado no evento anual “Broadway Backwards”, o nosso “Tudo ao Contrário – A Cena em Prol da Vida”, tem como objetivo arrecadar fundos para a Sociedade Viva Cazuza, mas não apenas isso! A intenção do espetáculo, que mexe no gênero de personagens, e inclui versões de canções consagradas do teatro nacional e internacional, é também celebrar o respeito às diversidades que vem sido tão difícil em nosso território nacional!

Com direção de João Fonseca e Reiner Tenente, aliada à regência do maestro Tony Lucchesi, e coreografias inspiradas de Victor Maia, Clara da Costa, Bella Mac e Patrícia Carillo, o espetáculo desse ano não só continuou brincando com os gêneros e entregando momentos divertidíssimos e também emocionantes, como aproveitou para alfinetar as polêmicas atitudes do prefeito do Rio de Janeiro, Marcelo Crivella, os comentários e gestos do deputado Jair Bolsonaro, além claro, de todos os atores entrarem com uma Carteira de Trabalho cenográfica, em protesto à votação do SFT que desregulamentaria a profissão de artista, extinguindo o DRT, registro de profissional de artista.

Com músicas consagradas, o show levantou o público, assumiu erros (muitas vezes recomeçando números musicais!), e mesmo até mesmo repetindo cenas da edição 2017, conseguiu passar toda a mensagem que pretendia. Então, como era um show em prol da alegria e respeito, nós do Backstage Musical separamos 10 momentos IMPERDÍVEIS de “Tudo ao Contrário 3”:

 

1) BANHO DE LUA
Assim como no ano passado, o cantor e ator Jorge Maia mais uma vez surpreende trazendo muito humor ao número “Banho de Lua”, vindo direto de “60! Doc. Musical”. Se em 2017 ele foi a Branca de Neve, aqui ele assume a forma de um homem que com passos sensuais, consegue conquistar todo o coro que o segue, assumindo o posto de diva da cena. Os trejeitos de Maia, e sua voz, fazem do número o primeiro a arrancar risadas e aplausos do público.

 

2) AS RAINHAS LEOAS
Evelyn Castro e Tathi Lopes, ambas atrizes do canal Porta dos Fundos, encarnaram duas leoas da savana africana ao som de “Essa noite o Amor Chegou”, uma das (se não a) canções mais românticas do musical “O Rei Leão”. Com uma química que já é vista nos vídeos do canal da web, Evelyn e Tathi aqui repetem a parceria, assim como no ano anterior, quando cantaram um medley com as músicas do musical “A Bela e a Fera”. Com muito humor, gestos e caindo para o politicamente incorreto, as duas outra vez saíram ovacionadas, contando ainda com a participação de João Fonseca e Pedro Pedruzzi, cantando as partes da dupla Timão e Pumba.

 

3) ERROU? VOLTA!
Em “Tudo ao Contrário 2”. Assim que a versão de “Another Day of Sun” do filme “La La Land – Cantando as Estações”, aqui chamada de “Sou Gay e Tudo Bem”, houve uma falha no microfone de uma das atrizes, ao ver que isso prejudicaria não só a cantora, como a apresentação, imediatamente o diretor João Fonseca propôs voltar a cena inteira, e começar de novo. Esse ano, isso se repetiu de outra forma, com André Dias na canção “The Man I Love” de “Strike Up The Band”. Ao aparentemente esquecer a letra da música, o ator voltou ao início, e ainda contou com a ajuda de uma pessoa da plateia. Foi um momento que poderia ser tenso ou constrangedor em outra produção, mas que aqui, devido ao clima do espetáculo e carisma de Dias, fez parte do show e em nada atrapalhou o seu divertido e emocionante desenvolvimento.

 

4) FANTASMA ASSUSTADORAMENTE AFINADO DA ÓPERA
Uma das primeiras apresentações a receber aplausos sob gritos e barulhos, foi a de Victor Maia e Wladimir Pinheiro com a canção tema de “O Fantasma da Ópera”. Wladimir conseguiu emocionar com o alcance e poder de sua voz, e da voz imponente de Maia, que ainda coreografava o espetáculo durante seu andamento, fizeram do número algo de arrepiar. Foi o momento onde ao olhar para o lado, podia-se perceber o quão o público estava impressionado com a dupla! E realmente, ao final, todos pareciam terem voltado a respirar! Coisa de fantasma mesmo!

 

5) O MAIS QUE BEM VINDO RETORNO DOS QUE JÁ FORAM
“Tudo ao Contrário 3” trouxe de volta dois números muito divertidos, e que contavam com boa parte do elenco do coral e de bailarinos. São eles a já citada versão de “Another Day of Sun”, ou “Sou Gay e Tudo Bem”, e também a da música e sucesso nacional “Uma Partida de Futebol”. Ambas mostram a sintonia dos atores, bailarinos, coro, e em como as coreografias não deixam em nada a desejar. São os tipos de números que nos fazem cantar junto e querer levantar para dançar com o elenco. Aliás, em “Uma Partida de Futebol”, o elenco composto somente por mulheres ( Marina Mota, Joana Mendes, Thainá Gallo, Maira Garrido, Camila Matoso, Giovanna Rangel, Carol Botelho, Tecca Ferreira, Gabi Porto, Bel Lima e Lyv Ziese) fez uma bela homenagem à deputada Marielle Franco em suas blusas, com a hashtag “Marielle Para Sempre”.

 

6) CAZUZA VIVE!
Não faltou emoção nas apresentações de músicas mais românticas ou melancólicas, mas foi com “Faz Parte do Meu Show” que na plateia pode homenagear um cantor que este ano estaria fazendo 60 anos, o Cazuza. Para isso, a ilustre cantora Zélia Duncan foi convidada, e interpretou o sucesso “Faz Parte do Meu Show”, homenageando o cantor que dá nome à ONG beneficiada pelo evento. Duncan emprestou seu vozeirão à uma canção que marcou muito a vida de muitos ali presentes, e o seu peso e discografia aumentou ainda mais sua energia ali presente.

 

7) NEY & GENI
Duas divas do teatro musical brasileiro também marcaram presença (E que presença!) nessa 3ª edição. Enquanto a incrível Soraya Ravenle trouxe de “Puro Ney” a canção “Homem com H”, a não menos talentosa Stela Maria Rodrigues interpretou de forma estupenda o clássico de “Ópera do Malandro”, “Geni e o Zepellin”. Ambas entregaram ao público o que já era de se esperar: Muita emoção, homenagens, e uma presença de palco que fica voltando na nossa lembrança até o final do show. Palmas para essas duas grandes “monstras” do nosso teatro musical!

 

 Vídeo do Teatro em Cena

 

8) HINO ÀS MINORIAS
Quem assistiu ao filme musical “O Rei do Show”, sabe o quanto as canções dele são não só chicletes, porém também repletas de mensagens de luta contra preconceitos, perseguir os sonhos, além de lindas. Com uma versão inspiradíssima de Bruno Camurati, as cantoras Kakau Gomes, Lilian Valeska, Helga Nemeczyk e Caio Loki subiram ao palco para entoar o que fora escolhido o novo hino dos excluídos, a linda canção “This is Me”, aqui traduzida como “Sou Assim”. Com a participação do coro do espetáculo, e artistas circenses no palco, a música não só arrepiou, como empolgou toda a plateia pela força vocal do trio de mulheres. A letra traduzida passou exatamente o espírito da música mais forte do longa-metragem, e merece muito destaque. Foi o número mais emocionante do dia, resgatando o mesmo sentimento que a versão original com Keala Settle.

 

9) SIMONAL EM CHICAGO!
O queridinho dos musicais Ícaro Silva, que se encontra no mesmo Teatro Riachuelo Rio no musical “Romeu e Julieta”, emprestou todo seu carisma e malemolência ao lado de Thiago Machado, para interpretar a canção “Nowadays”, do sucesso “Chicago”, versão brasileira de Claudio Botelho. Ambos atores usaram de coreografias até que simples para o número de dança no meio da canção, e com toda força vocal e expressão corporal, além do sorriso inconfundível de Ícaro, trouxeram saudades das canções de “Chicago”.

 

10) OUSADIA
Seria possível citar não só alguns, mas todos os números musicais de “Tudo ao Contrário 3”, mas se algo se destaca além do talento de toda a trupe que participou como voluntários, já que a bilheteria completa seria revertida para a Sociedade Viva Cazuza, é a ousadia em não só criticar e cutucar a política, mas em trazer um espetáculo completamente voltado para a causa LGBT, tratando todos com respeito, e usando uma forma tão universal como a música ,o teatro e o cinema para abranger essa luta pela igualdade. 
Ao misturar novos talentos com atores consagrados, o espetáculo mostra essa possibilidade de todos se encontrarem sob um mesmo ideal. Ao vermos no mesmo palco Laila Garin (Elis), Cláudio Lins, Tadeu Aguiar, as já citadas Soraya Ravenle e Stela Maria Rodrigues, dividindo com Leo Bahia, Hugo Kerth, Victor Maia, Ícaro Silva, Thainá Gallo (que brilho no musical “Só Por Hoje”, inspirado na vida da mãe de Reiner Tenente, diretor do musical), vemos que podemos unir forças, sermos ouvidos, e provar que a arte é sim algo de valor, talvez tanto quanto a educação. E em “Tudo ao Contrário” essa aceitação é bem direta, e quem pensar o contrário, é tão “old”!

 

 

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