O Homem por trás de La Mancha

12/4/2017

De volta a São Paulo para uma nova temporada, o musical "O Homem de La Mancha" é um espetáculo que tem encantado o público. Em cartaz no Teatro Alfa, o musical impressiona pela estória emocionante, pela precisa direção e movimentação cênica e pela estética tão peculiar: Figurino, cenário e iluminação todos alinhados de uma forma única, que difere a produção do Atelier de Cultura de qualquer outra produção do musical já vista.


Dirigido e adaptado pelo multi-talentoso Miguel Falabella, o musical foi re-imaginado: Na concepção original, a história se passa num calabouço da inquisição espanhola e conta a história de Dom Quixote de La Mancha de maneira quase literal, se valendo da estética da época em que história se passa. Por aqui, o local das ações passa ser um manicômio e, ao invés de detentos, temos loucos contando a história com figurinos mais contemporâneos que tem diferentes elementos e matérias incorporados. A adaptação tão original e elogiada foi ideia de Falabella, resgatando a obra artística de Arthur Bispo do Rosário.


Natural do Sergipe, Bispo do Rosário foi pugilista, integrou a marinha e quando trabalhava como empregado numa casa do Rio de Janeiro, foi internado na Colônia Juliano Moreira, no Rio de Janeiro em 1938 sob diagnóstico de esquizofrenia. Ao todo, foram 50 anos como interno, até sua morte aos 80 anos. Foi na Colônia que Bispo do Rosário desenvolveu suas esculturas e obras artísticas como forma de comunicar a missão que acreditava ter entre os homens: apresentar a Deus o mundo e as coisas do homem, se pondo como um juiz entre os vivos e mortos.
Com sucatas e objetos descartados, o artista começou a adornar objetou, bordou mantos com escritos e construiu painéis, tudo com uma linguagem muito própria utilizando-se de botões, canecas, colheres, lençóis garrafas plásticas e arames. Bispo do Rosário não se via como artista plástico e apenas um ano após a sua morte que foi consagrado como um nome das novas vanguardas artísticas que ascenderam na década de 1960, sendo suas obras comparadas às de Marchel Duchamp e Andy Warhool, ícone da Pop Art. Hoje, sua obra se encontra preservada pela Museu Bispo do Rosário de Arte Contemporânea, mantido pela Secretaria de Saúde do Governo do Estado do Rio de Janeiro.


Além de ser a inspiração estética e visual do espetáculo, percebida no cenário, figurino e programação visual, a própria figura do Bispo aparece no musical "O Homem de La Mancha". Na obra original, o Governador se apresenta como a espécie de chefe entre os prisioneiros/loucos, pondo ordem na vida interna dentro do calabouço/pátio e dando o veredito final de condenação ou não perante aquela comunidade. Miguel Falabella, durante o processo de pesquisa percebeu que Bispo do Rosário exercia esse mesmo papel na Colônia Juliano Moreira e por isso, a caracterização da personagem (vivida pelo ator Guilherme Sant’Anna) é feita de forma a ser uma referência direta a Bispo do Rosário e os mantos que usava. O encontro do universo de La Mancha com as obras do artista plástico deu muito certo e o resultado é de brilhar os olhos e despertar a curiosidade do público.
 

 Miguel Falabella e Guilherme Sant'Anna: Mantendo o legado artístico de Bispo do Rosário vivo em 'O Homem de La Mancha' (Foto: João Caldas)
 

Se você se interessou no trabalho de Bispo do Rosário, uma boa pedida é ir conferir a peça teatral BISPO que atualmente está em cartaz em São Paulo no SESC Bom Retiro. Apresentado como um monólogo pelo ator João Miguel (conhecido pelo público pela sua atuação na série original do Netflix 3%), a peça não é uma biografia, mas inspirada no legado do artista plástico paraibano e tem intuito de mostrar ao público como foi o processo criativo de Bispo do Rosário.
 

 João Miguel em cena como Bispo do Rosário (Foto: Diney Araújo)
 

Além de atuar, João Miguel foi responsável pela concepção da peça e se autodirige em cena. O ator começou a pesquisar sobre a história de Bispo de Rosário em 1996, visitando hospitais psiquiátricos e indo até os locais onde o artista desenvolvia seus trabalhos. O Coletivo Bispo também participou na criação da peça e Edgard Navarro é o dramaturgo por trás do texto que se preocupa em mostrar a “loucura lúcida” do artista plástico e assim, como em "O Homem de La Mancha" retratar a diversidade e identidade única das obras de Bispo do Rosário, nos levando a uma reflexão sobre a loucura e a sociedade. Programa imperdível para os fãs do musical!


SERVIÇO
Bispo 
Sesc Bom Retiro (Alameda Nothmann, 185)
Sextas e Sábados às 21h. Domingos às 18h
Temporada até dia 23 de Abril
Ingressos Online podem ser adquiridos no Site do SESC 


O Homem de La Mancha
Teatro Alfa (Rua Bento Branco de Andrade Filho, 722 – Santo Amaro)
Sessões as Quintas-feiras às 21h; Sextas-feiras às 21h30’; Sábado às 17h e 21h e aos Domingos às 17h.
Vendas: Bilheteria Local e Ingresso Rápido

 

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