Por dentro de American Idiot

14/10/2016

 

Considerado um dos melhores álbuns já lançados pela banda de punk rock Green Day, American Idiot, foi composto num período de transição da banda, onde é mesclado traços do punk tradicional da banda com uma tentativa de também se aventurar em novos estilos musicais, como o rock alternativo, por exemplo. O resultado disso foi um conjunto de poesias inigualáveis encaixadas em composições completamente originais e extremamente teatrais, que casaram de forma perfeita para no rock musical  que surgiria anos depois.

 

O álbum que foi lançado em 2004 foi feito na forma concept álbum, onde acompanha a jornada do Jesus of Suburbia, ainda de uma forma meio indefinida, transmite no personagem principal a insatisfação dos compositores com a ordem mundial em que vivemos, a alienação gerada pela mídia, e a política baseada em guerras, intolerância e violência.

 

 

Michael Mayer, renomado diretor da Broadway, conhecido por diversos espetáculos como “Spring Awakening”, viu nesse álbum a possibilidade de criar uma rock opera que traria uma nova cara para essa forma de teatro, trazendo pela primeira vez o punk ao circuito de musicais da Broadway.

 

Ao desenvolver o espetáculo, Michael optou por manter a sequência original das músicas, além de não adicionar diálogos, para que fosse mantida a simplicidade e a fluidez necessárias para uma opera rock. Apesar disso, tendo acesso a demos até então ainda não lançadas do álbum seguinte da banda, 21st Century Breakdown, vencedor do Grammy de melhor albúm de rock, o autor adicionou cinco músicas para ajudar a contar a história e desenvolver os personagens. São elas: ‘Last of The American Girls’; ‘Last Night On Earth’; ‘Before The Lobotomy’; ‘Know Your Enemy’ e ‘21 Guns’.

 

 

AMERICAN IDIOT


A música que abre, e dá o título ao musical, foi a primeira vez que a banda apresentou um engajamento político, seu tema resume todo o assunto do musical. Em sua essência, música trata da alienação proposital da população por parte de determinados grupos políticos, por meio das grandes mídias, como forma de manipular as grandes massas. Tamanho o sucesso da música e do álbum, que os próprios fãs do Green Day começaram a se autodenominar 'Idiots'.

Indo além da simples ignorância, burrice, a palavra idiota possui um significado um tanto diferente do que estamos acostumados a utilizar: Ela deriva do grego, idhiótis, que significa um cidadão privado da vida pública, em outras palavras, um ignorante político. Fazendo com que a música, que a princípio parece ter um caráter crítico em especificamente relação à alienação gerada pelas mídias, ganhe sutilmente uma visão política.

 

 

JESUS OF SUBURBIA


Ao longo do desenvolvimento do espetáculo Jesus of Suburbia se desdobra em três personagens, três amigos que iniciam sua jornada em uma pequena cidade chamada Jingletown, que abandonam para procurar um sentido para suas vidas na cidade grande, e ao final do espetáculo se reencontram onde tudo começou. O trio é formado por:

 

Johnny, o personagem central do espetáculo, um jovem que ao chegar à cidade grande percebe que seus desejos e sonhos não seriam realizados. E vendo-se sem amigos, sem amor e sem um propósito de vida, acaba mergulhando no mundo das drogas.


Tunny, que encontra a solução para sua crise existencial ao se alistar no exercito norte-americano, dando sua vida à sua pátria, após ter contato com uma propaganda patriota, durante a música ‘Favorite Son’, que em seu sentido original questiona o status dado aos "heróis de guerra". Porém, numa batalha, o personagem acaba ferindo gravemente sua perna, e, ao ser hospitalizado, se apaixona por sua enfermeira.

 

 

O terceiro é Will, personagem marcado por uma forte simbologia, uma vez que passa literalmente o espetáculo todo sentado em seu sofá, bebendo, assistindo televisão e até tricotando. Dos três protagonistas é o único que não deixa a cidade de Jingletown: um pouco antes de partir com seus amigos, sua companheira, Heather, lhe dá a notícia que os dois teriam um filho, e ele se vê obrigado a ficar em casa cuidando dos dois.

 

Will traz consigo o espírito do Green Day do início de carreira, onde seus grandes sucessos, como ‘Longview’, que trata acima de tudo do tédio o qual toma conta da vida todos os jovens, que acabam se trancando em casa, adquirindo depressão, e sem perspectiva de futuro, num inacabável niilismo.

 

A música que carrega esse título é a segunda mais longa criada já pela banda, atrás apenas de ‘Homecomig’, e veio de uma grande ambição: criar uma nova ‘Bohemian Rhapsody’ para as gerações contemporâneas. Apesar de falhar em alguns requisitos para tal feito, a música se destaca ao meio da obra da banda, juntando elementos extraordinários.

 

 

HOLIDAY


"Essa não é uma música contra a América, e sim contra a guerra." É assim que Billie Joe, o vocalista do Green Day, explica ‘Holiday’. A música que marca o início da jornada de Johnny e Tunny é mais uma tentativa do autor de reafirmar, de forma mais clara, seu ponto de vista presente na música ‘American Idiot’, alfinetando vários aspectos política norte-americana.

 

O contexto em que a música está inserida é o da guerra do Iraque, logo de início fazendo referência às centenas de americanos e iraquianos que morreram na guerra sem reconhecimento ("The shame, the ones who died without a name"). Nesse meio, a hipocrisia de nenhum grupo é passada em branco: é ironizada a atitude de cristãos que são a favor da guerra (Can I get another Amen -amen!-, There's a flag wrapped around a score of men), criticando também protestantes republicanos que descobrem o poder do dinheiro das campanhas pró-guerra e têm seus valores corrompidos (Another protestor has crossed the line, to find, the money's on the other side).

 

Jingletown é citado de forma sútil logo no álbum conceito, em um trecho de Homecoming ("We're back in the barrio, but to you and me, that's jingle town that's home"), ganhando força no musical, onde algumas adaptações de letra evidenciam a natalidade dos protagonistas. O primeiro momento em que isso é possível de reparar é na música Holiday, onde o "President of California" é substituído por "President of Jingletown".


O que aparentemente é um nome fictício de uma cidade, criado para designar um local nos subúrbios onde a propaganda é uma peça enraizada no desenvolvimento de quem vive lá, é na verdade um local real: Não uma cidade, como apresentado no musical, Jingletown é o nome de um bairro onde se concentra uma comunidade artística, em Oakland, na Califórnia, cidade de origem de Billie Joe Armstrong e Mike Dirnt.

 

 

ST. JIMMY


O diretor Michael Mayer confessou em uma entrevista que uma das suas maiores dificuldades em criar a narrativa do musical foi descobrir quem seria a figura do Saint Jimmy. Descrito na música como o produto da guerra e do medo os quais somos vitimas, sou o santo padroeiro da contradição, com um rosto de anjo e um gosto pelo suicida, tradução livre de "The product of war and fear that we've been victimized, I'm the patron saint of the denial, With an angel face and a taste for suicidal ".

 

Michael decidiu fazer dessa figura o alter ego de Johnny, que em uma análise superficial, é a versão drogada do personagem. Mas Saint Jimmy vai, além disso, representando tudo aquilo que Johnny gostaria de ser e não é: alguém com que todos gostariam de sair, beijar ou matar, a pessoa mais perigosa com quem alguém poderia encontrar, simbolizando tudo que há de mau.

 

A lista de atores que já interpretaram o personagem é longa e contém alguns rostos que valem ser citados. A começar pelo próprio Billie Joe Armstrong, que entrou no elenco da Broadway numa primeira vez para substituir Tony Vincent (conhecido por seu trabalho com a banda Queen, além de originar o personagem Galileo no musical ‘We Will Rock You’), e voltando mais tarde para as últimas apresentações. Nesse meio tempo, o Santo das Negações também foi interpretado por Melissa Etheridge, dando pela primeira vez uma cara feminina ao personagem.

 

 

LAST OF THE AMERICAN GIRL/ SHE'S A REBEL


As duas músicas consistem no único mash-up presente no musical, a primeira do álbum ‘21st Century Breakdown’ e a segunda de ‘American Idiot’, e introduz na história a personagem Whatsername, uma jovem rebelde que Johnny conhece em sua viagem e acaba se apaixonado. Representando também o contraponto do personagem St. Jimmy, tentando salvar o Jesus of Suburbia do buraco que ele está se enfiando.

 

A primeira música, no contexto de ‘21st Century Breakdown’ (que também foi feito no formato álbum conceito), trata da personagem Gloria, uma jovem que após o rompimento com seu namorado Christian, descobre que o amado libertou seu lado vingativo e cheio de ódio, na música ‘Peacemaker’, e ela, por sua vez, decide tomar o caminho oposto.

 

Billie ao escrever a música se inspirou em sua esposa Adrienne e em suas experiências próprias, onde a personagem central é descrita como uma guerreira destinada a lutar por uma causa maior, preenchida por um sentimento de justiça e igualdade, típica do americano, mas que vêm se perdendo ao longo das gerações. Tal fato faz com que ela seja descrita como "a última das garotas americanas".

 

she's a Rebel foca no caráter revolucionário da personagem, demonstrando uma força que vai além de apenas intenções, mas sendo capaz também de fazer uma revolução com as próprias mãos, sendo uma ameaça real para o sistema. Vale notar, também, que a música serviu de base para a icônica arte da capa do álbum, descrita nos versos "she's holding my heart like a hand grenade".

 

 

 WHEN IT'S TIME


Um doce e agradável momento do espetáculo é quando Johnny senta em sua cama com seu violão, e começa a compor uma serenata para Whatsername, que está ali dormindo. Foi exatamente assim que surgiu 'When It's Time', inédita no musical, nunca gravada antes, a música foi escrita por Billie Joe quando o cantor tinha apenas 19, como forma serenata para sua atual esposa, na época em que eram apenas namorados. No próprio Cast Recording é possível ouvir uma faixa extra após o termino do álbum, onde Billie Joe gravou pela primeira vez a música em um estúdio.

 

  

KNOW THE ENEMY


No espetáculo, a música é utilizada para representar o maior momento de descontrole de Johnny, e em contrapartida, maior fúria e força de St. Jimmy, que utiliza de tal poder para fazer com que o protagonista se automutile e tente machucar também Whatsername.

 

Nesse contexto, acaba não ficando claro o sentido inicial da música, composta como um hino de revolta contra toda manipulação de massa. Trazendo novamente o espírito presente em todo musical, ela chama todo o público para se atentar no verdadeiro inimigo, que não são as pessoas com as quais convivemos todos os dias e acabam nos desagradando em algum momento, mas sim aquelas pessoas que possuem um grande poder público.

 

 WAKE ME UP WHEN SEPTEMBER ENDS


Uma das músicas mais famosas da banda se tornou em um dos momentos com maior carga emocional do espetáculo. A música originalmente trata do falecimento do pai de Billie, ocorrido em um 1° de setembro. Após vinte anos de sua morte, seria a primeira vez que o vocalista trataria do assunto em uma de suas músicas. Uma interpretação muito frequente é também a de que a música é dedicada às vítimas do atentado ocorrido em 11 de setembro de 2001.

 

No musical, ela representa o momento de maior ruína dos protagonistas, Johnny e Will. O primeiro, que foi a cidade para achar um destino a sua vida, nunca se encontrou tão perdido, abandonado pela garota de seus sonhos e mergulhado em drogas. O segundo, além do seu estado inicial preso ao seu sofá, acaba perdendo sua namorada e se distanciando de seu filho.

 

 

 HOMECOMING


De uma brincadeira da banda, de criar pequenas músicas de 30 segundos, surgiu Homecoming, a música mais longa de toda a carreira da banda. Mike Dirnt conta que havia composto uma música bem curta sobre seu dia-a-dia, Billie Joe e Tré Cool embarcaram na ideia e decidiram fazer o mesmo.

 

Nisso, os três perceberam uma conexão entre todas aquelas músicas, então decidiram juntar tudo em apenas uma faixa, dando origem ao que os inspirariam a criar um concept álbum. O embrião do disco tinha também a mesma pretensão que Jesus of Suburbia, deixar para as gerações futuras um novo “Bohemian Rapsody”.

 

 

 

DIÁRIO DE JESUS OF SUBURBIA


Junto ao lançamento do álbum conceito, a banda lançou um pequeno livro, escrito em primeira pessoa, onde o próprio Jimmy (que no original seria também a figura do Jesus of Suburbia) narra sua jornada, trazendo a ideia original do que seria a história na perspectiva de Billie, Mike e Tré. As poucas falas presentes no musical, que servem de transição entre as músicas foram todas retiradas de trechos dessas páginas. O livro pode ler lido em português no seguinte aqui.

 

NO BRASIL


Aqui no Brasil, além dos fãs fiéis de Green Day, sempre há um grande público para os rock musicals , como foi possível ver nas montagem brasileiras de ‘We Will Rock You’, ‘Jesus Cristo Superstar’ e muitos outros. De olho nisso, Renata Borges da Fábula Entretenimento comprou os direitos e está produzindo o espetáculo que promete estrear em março de 2017, no Rio de Janeiro, sob direção de Mauro Mendonça Filho.

 

No elenco, já foram confirmado os seguintes nomes: Thiago Fragoso, famoso por seus inúmeros trabalhos na rede Globo e que já protagonizou ao lado de Daniele Winits a montagem brasileira do musical ‘Xanadu’. Lua Blanco foi também confirmada; a atriz tem em seu currículo diversos trabalhos no teatro musical, como ‘Se Eu Fosse Você’ e ‘O Despertar da Primavera’ e ganhou popularidade por sua participação na novela ‘Rebeldes’. Soma-se ao elenco ainda Thais Piza, que depois de diversos musicais, concorreu ao prêmio Bibi Ferreira deste ano pela personagem Oz em ‘We Will Rock You’; Bruno Sigrist, que já participou de musicais como ‘Mudança de Hábito’, ‘Se Eu Fosse Você’, e mais recentemente ‘Cinderella’; Nando Brandão , que participou da montagem de ‘The Book of Mormon’ da UNIRio e, Beto Sargentelli outro veterano dos palcos, tendo atuado mais recentemente em 'Godspell - Em Busca do Amor', 'We Will Rock You', 'Mudança de Hábito' e 'O Rei Leão'.

 

 

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