Desvendando We Will Rock You

19/1/2016

Uma das promessas mais aguardadas para 2016 é o espetáculo londrino “We Will Rock You”. O espetáculo será uma produção da Caradiboi Arte e Esportes, empresa que tem produzido grandes eventos esportivos no Brasil e no mundo como a Snowboard Cup, além de produção de espetáculos como a turnê de “Madagascar Ao Vivo” e em breve, “Gabriela, O Musical”. A estreia do musical está agendada para dia 9 de Março, inaugurando o Teatro Santander, em São Paulo. Os ensaios do musical se iniciaram no dia 11 de janeiro, e no último fim de semana,  foi divulgado o elenco que será encabeçado por Alírio Neto, Lívia Dabarian, Beto Sargentelli, Felipe de Carolis, Fred Silveira, Andrezza Massei, Nicholas Maia e Thais Piza.

 

Inspirado nas músicas da banda Queen, o musical reúne cerca de 24 canções da tradicional banda de rock britânica. “We Will Rock You” tem sua ação em um futuro não tão distante, onde a vida real se mistura com a virtual e, os instrumentos musicais são banidos, sendo permitida apenas uma pequena quantidade de músicas tecnológicas. Nesse contexto entra Galileo e Scaramouche, dois jovens que buscam fazer sua própria música, e lutam pela volta dos instrumentos.

 

Da mesma forma que a grandiosidade das músicas da banda se dá, além do som, pela complexidade das letras e referências geniais, um musical baseado no trabalho do Queen não poderia ser diferente. Por isso, o Backstage Musical decidiu ir atrás de algumas referências para enriquecer sua experiência com o musical.

 

Innuendo

Ben Elton, o criador do musical, explica que, nas últimas décadas, a música tem parado de ser criada nas ruas, e imposta por uma força superior, onde, acima da música, é necessário ter um rosto bonito para interpretá-las. Para Elton, não há mais espaço para bandas de garagens onde simples jovens pegavam seus instrumentos e começavam a criar novos tipos de músicas, como forma de expressar seus próprios pensamentos.

 

Essa transformação é apresentada durante a cena de “Innuendo”, música que serve como um prólogo introdutório do musical em uma linha do tempo, e, em uma projeção do futuro, o autor prevê que em condições extremas tais instrumentos serão banidos, junto a pessoas que não se encaixam aos padrões de beleza, e apenas a música digital será permitida. No espetáculo, Freddie Mercury dá voz aos rebeldes em “Innuendo”, com a gravação original da música. Nela, ele afirma que continuará lutando até o fim dos tempos pela causa apresentada ("We'll just keep on trying, Till the end of time"), que no contexto do musical, seria a luta para a volta de uma música individual. Esse trecho abre espaço para uma recorrente interpretação: a de que Galileo seria uma espécie de reencarnação de Freddie, e como prometido, continua em sua busca pelos instrumentos.

Radio GaGa

Todo o universo do espetáculo foi construído a partir de “Radio GaGa”, a música que abre o espetáculo. Sendo ouvida uma primeira vez, facilmente é passada despercebida toda sua crítica, fortemente inspirada no filme futurista alemão ‘Metropolis’ de 1927, que se passa no ano de 2026, numa representação muito próxima da realidade em que vivemos. Mesmo sendo produzido há quase um século, o filme já previa o nível em que processo de globalização chegaria, ainda que com uma visão extremista: Todos vestem as mesmas roupas, pensam da mesma maneira, quase como máquinas. Criticando ainda o nível extremo que poderia chegar o capitalismo, a exploração de milhares de pessoas a favor de um pequeno grupo, como consequência da revolução industrial.

 

Entretanto, por ser a música que define todo o resto do espetáculo, inclusive dando nome ao local onde se passa o musical, “Radio GaGa” foi uma das únicas que teve mudanças na letra, sendo também uma das poucas versionadas para as línguas locais de produções internacionais. Na ocasião da estreia do musical, foram percebidas algumas diferenças com relação ao rumo que a tecnologia teria em comparação com o que se esperava em 1984, quando a canção foi escrita. Sob intenção de contextualização temporal, foram adicionados versos como "And everything we want to get/ We download from the internet" (E tudo que queremos ter/fazemos download pela internet), que no original seria "And everything; I had to know/I heard it on my radio " (E tudo que quero saber/Escuto pelo meu rádio).

No One But You 
Em determinado momento o show é parado e os boêmios citam nomes dos heróis que morreram cedo tentando salvar a música, sendo ultimo nome citado é Freddie (uma clara referência a Freddie Mercury), a partir daí a personagem Meat canta junto de seu grupo “No One But Yo”, em uma linda homenagem ao grande artista. A música nunca foi imortalizada pela voz do grande vocalista. Escrita por Brian May, gravada apenas em 1997, seis anos após a morte do cantor, foi dedicada a Freddie, marcando também a última música gravada pela banda, antes de seu recente retorno em 2014.


No musical, a homenagem faz parar a ação, e ainda sim se torna um dos pontos altos do espetáculo, emocionando toda a plateia, que lembra do responsável por esse musical ser possível, com as palavras "One by one; Only the good die young; They're only flying to close to the sun; Life goes on; Without you" (Um por um, apenas os bons morrem jovem; Eles apenas voam perto do sol; A vida prossegue sem você). Tamanha a relevância dada a cena que também é uma das poucas músicas traduzidas para as línguas locais, mesmo não contribuindo substancialmente para a narrativa do musical.

Os Personagens 

Uma coisa que é facilmente percebida é absolutamente nenhum nome foi dado a um personagem sem ter razão alguma. Algumas referências, como os nomes dos boêmios são bem claras: Oz de Ozzy Osbourne (variando para Meat, de Meat Loaf), Pop de Iggy Pop e Brit de Britney Spears, que em algumas produções pode variar para Paris (Paris Hilton), Duff (Hilary Duff), Vic (Vicotria Beckham) ou J.B. (Jeanette Biedermann), sempre brincando com alguma celebridade em evidência no momento; assim como os demais boêmios que compõem o ensemble do musical. 

 

Partindo das vozes escutadas por Galileo são criados dois nomes: Scaramouche e a do próprio jovem, Galileo Figaro, ambos retirados da parte operística do clássico Bohemian Rapisody. O primeiro nome surge por conta do personagem título do livro ‘Scaramouche’ de Rafael Sabatini, onde Andrè Moreau tenta ajudar um amigo que luta contra a monarquia francesa, e se vê obrigado a se esconder numa companhia teatral onde adota o nome dado a uma figura de palhaço do teatro italiano, também conhecida como Harlequin. O segundo nome possui duas referências: A primeira é o cientista e filósofo italiano Galileo Galilei, um dos nomes mais famosos do renascimento, o qual criou o telescópio, instrumento que revolucionou a astronomia. Fígaro faz referência ao personagem da clássica ópera ‘O Barbeiro de Servilha’.

A personagem Killer Queen é introduzida ao musical com a música que dá origem ao seu nome, a qual fala de uma mulher que vive em meio a luxos e ao mesmo tempo não poupa a vida de ninguém, denunciando a aristocracia. A grande antagonista do musical  chega a ser comparada, dentro da narrativa da canção, com Maria Antonieta, citando uma das mais famosas frases atribuídas a ela "Que comam brioches", seguida de uma adaptação na letra "buying it on internet " (comprando pela internet), mostrando ser uma figura que age da mesma maneira, mesmo inserida em um novo contexto.

O personagem que possui o nome com referência menos imediata é com certeza o Commander Khashoggi. Inspirado em Adnan Khashoggi, um empresário da Arábia Saudita, distribuidor de armas, considerado um dos homens mais ricos do mundo. Tal nome chegou ao musical pela música “Khashoggi's Ship”, gravada em 1988 e lançada no álbum ‘The Miracle’. Para um fã atento, não é difícil perceber que a parte visual do personagem é toda inspirada no baterista Roger Taylor: o cabelo loiro quase branco, seu óculos escuros, formato do rosto e outras características. Entretanto, algo que poucos sabem (principalmente devido ao uso dos óculos) é que, em algumas produções, o personagem possui um olho de cada cor, o direito castanho, em tom avermelhado e o esquerdo, em um tom de verde azulado bem claro. Tal característica surgiu a partir da capa do álbum ‘The Miracle’, onde os rostos dos membros da banda são fundidos e o baterista recebe um olho de Mercury.

Em meio a tantas referências, fica mais fácil de apreciar o musical, sendo “We Will Rock You”, um lindo tributo a trajetória musical do Queen. Para levar dar voz e personalidade ao legado da banda, foram escolhidos para formar o elenco da produção brasileira Alírio Neto (Gallileo), Lívia Dabarian (Scaramouche), Fred Silveira (Kashoggi), Andrezza Massei (Killer Queen), Felipe de Carolis (Toca, adaptação brasileira para Pop). Nicholas Maia (Brit) e Thais Piza (Ozzy). O ator Beto Sargentelli irá alternar Gallileo com Alírio, também foram confirmados no elenco Amanda Doring, Anelita Gallo (Swing/Dance Captain), Bárbara Guerra Xavier, Carol Isolani, Clara Camargo (Swing), Daniel Caldini, Danilo Barbieri (Swing), Fernanda Belinatti, Fernando Lourenção, Fernando Mariano, Gabriel Conrad Spano (Swing/ Dance Captain Assistente), Jefferson Ferreira, Leo Rommano, Letícia Soares (Teacher), Mariana Hidemi, Marisol Marcondes, Raquel Quarterone, Renato Bellini e Thiago Machado. Os nomes de Bianca Tadini e Luciano Andrey estão associados à versão brasileira do musical.

Para além da trilha sonora com as músicas consagradas por Freddie Mercury, Brian May e Roger Taylor, o musical se preocupou em amarrar o texto com fragmentos da grande repertório da banda, o que o enriquece o seu valor artístico. Com um elenco de peso, “We Will Rock You” promete ser um dos grandes destaques da temporada de musicais que se inicia em 2016 na capital paulista. Esperamos ansiosamente pela estreia do musical, na certeza de que será uma grande produção que certamente irá cativar os fãs, que sejam do Queen ou do Teatro Musical.

 


 


 

 

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