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Setembro Amarelo – Confira Musicais que Contribuem Para a Discussão do Tema


O mês de setembro é marcado pela campanha Setembro Amarelo, uma mobilização nacional de prevenção ao suicídio. Com intuito de trazer à população conscientização sobre uma temática tão sensível, a campanha começou em 2014 como uma iniciativa anual da Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP) em parceria com o Conselho Federal de Medicina.

Segundo os dados divulgados pela ABP, cerca de 12 mil suicídios acontecem no Brasil anualmente, e quase 97% dos casos estão relacionados com transtornos mentais. Dentre as causas mais associadas estão a depressão, transtorno bipolar e uso de substâncias. Uma realidade realmente muito dura e infeliz e o intuito da campanha é justamente alargar o diálogo, abrindo espaço para que seja falado e discutido, para que haja a quebra de paradigmas e noções simplórias de como enfrentar a depressão.

O suicídio, bem como diversas disfunções psiquiátricas, tem sido representadas em diversas obras de ficção ao longo dos anos e, por que não usar da força da emoção presente na interpretação de uma canção para trazer essa discussão ao público quando assiste a um musical? Parece contraditório, certo, afinal a impressão geral é que Musicais tendem a ser obras muito positivas e cheias de números animados, mas não por isso que temáticas tão sérias e de grande relevância na sociedade podem ser discutidas dentro do Teatro Musical.

Com intuito de trazer o diálogo para vocês que acompanham o Backstage Musical e, que assim como nós são apaixonados pelos musicais, preparamos uma lista mostrando alguns exemplos de como assuntos como suicídio e depressão foram abordados nos palcos:

DEAR EVAN HANSEN Certamente, uma das primeiras associações que um fã de musical poderia fazer com esse tema é com um dos maiores fenômenos do Teatro Musical da última década. O musical de Pasek & Paul tem uma abordagem que se conecta com facilidade com as plateias mais jovens, mas a complexidade dos temas abordados tratados de forma tão cuidadosa chamou atenção da crítica.

Na trama, o adolescente Evan Hansen tem transtorno de ansiedade social, sendo até recomendado pelo seu terapeuta a escrever cartas a si mesmo expressando pensamentos encorajadores a cada novo dia. Evan é impactado com o suicídio de seu colega Connor Murphy e as repercussões disso dentro da escola e de suas respectivas famílias. Canções como “Waving Through a Window” e “Disapear” trazem em si os dilemas vividos por esses jovens.

Sim, a forma como o protagonista acaba “se aproveitando” do triste caso para sua agenda particular não é legal, mas a proposta do musical está em realmente deixar um pulga no espectador, incentivando o diálogo aberto entre pais e filhos e amigos: Mais do que as aparências, ninguém deve ser esquecido.

QUASE NORMAL Ganhador do premio Pullitzer de melhor Peça, “Next To Normal” conta a história de Diana Goodman, uma mãe que sofre de Transtorno Bipolar e Esquisofrenia causada pelo trauma da perda de seu primeiro filho. As tarefas cotidianas se tornam confusas, o uso de remédios é constante para deixa-la em estado de anestesia. Seu marido Dan luta para deixar a família unida, abraçando e mostrando um apoio – e amor- incondicional à sua esposa.

Sucesso de crítica e de público, o segredo desse musical está em mostrar como a condição de Diana traz implicações em toda a família Goodman. As tramas de cada uma dos filhos, o acompanhamento médico, e até mesmo um jantar para conhecer a família do namorado se tornam cenas que trazem ao público uma identificação muito rápida. O figurino e a música são bastante contemporâneos fazendo com que qualquer pessoa poderia se enxergar dentro daquela situação, sendo confrontado sobre qual seria sua abordagem frente à essa situação. Longe de trazer o escapismo, o musical traz uma importante reflexão.

O HOMEM DE LA MANCHA Sucesso de público em São Paulo durante os anos de 2014 e 2015, o musical do Ateliê de Cultura, foi tão bem recebido que teve nova temporada na capital em 2017 e depois chegou aos palcos cariocas. “Man of La Mancha” é um dos clássicos da Broadway, mas a montagem brasileira dirigida por Miguel Falabella explorou ainda mais a loucura de Dom Quixote: Tradicionalmente a trama do musical se desenvolve num calabouço da inquisição espanhola por aqui, a trama se desenrola em uma unidade de tratamento psiquiátrico, os chamados hospícios. Sendo assim, os prisioneiros foram substituídos pelos loucos.

O protagonista já está no final de sua vida e está com suas memórias, visão e movimentos comprometidos, sendo visto como um louco. Alonso Quijana, ou melhor, Dom Quixote, foi mandado para o hospício como um artimanha de sua própria família. Embora o musical não chegue a explorar temáticas como depressão e suicídio, a crítica aos hospícios que foram tão comuns no Brasil é perceptível: a intolerância da família vem à tona e até mesmo a triste história de Aldonza faz o público refletir sobre as sequelas emocionais deixadas por aqueles que sofreram algum tipo de trauma.

CRAZY EX GIRLFRIEND Fruto da mente extremamente criativa da atriz e compositora Rachel Bloom, “Crazy Ex Girlfriend” é uma série de televisão musical que conta a história de Rebecca Bunch, uma garota que estava completamente insatisfeita com sua vida em Nova York e resolve se mudar para uma cidade no interior da Califórnia para preencher o seu vazio com uma mudança de carreira e a busca por um antigo amor da adolescência.

Com um humor ácido, acompanhamos os diversos altos e baixos de Rebecca que a levam a cometer atos intensos em busca de ter seu amor correspondido. Vários pontos são levantados: obsessão, depressão, autodestruição, comportamentos compulsivos e vícios. Em cada um das 4 temporadas acompanhamos a história de outros personagens e como cada um enfrenta seus traumas pessoais. A protagonista (vivida por Rachel Bloom) tem sua jornada de superação retratada desde a etapa da negação, passando pelas sessões com a psicoterapeuta, discussão sobre diagnósticos e tratamentos e os eventuais rótulos sociais. As finas camadas de humor tornam a série extremamente divertida, mas o assunto abordado desde o primeiro ao ultimo capítulo é igualmente sério.

Algumas canções que trazem essa temática à tona: “Stupid Bitch”; “The Darkness”; “A Diagnosis”; “I Have Friends”; “The End of The Movie”; “Greg’s Drinkin’ Song”; “You Do/ You Don’t Wanna Be Crazy”; “This Session Is Going to Be Different”. A série completa está disponível no Netflix e vale a pena ser vista.

GLEE Outra série aqui em nossa lista. “Glee” ganhou notoriedade por discutir abertamente sobre diversos temas levantando a bandeira da inclusão, auto aceitação e respeito mútuo. Dentre um dos episódio que se destacou foi o 14o da 3a temporada onde o vilão Karofsky tem uma tentativa de suicídio.

Na época da exibição, o episódio chocou muito dos Gleeks: De fato, ninguém imaginava que os atos homofóbicos e a não aceitação de sua própria aceitação fosse desencadear em um ato tão extremo e, como de praxe na série, todos os acontecimentos geram momentos de debate durante o ensaio, trazendo uma reflexão sobre a vida e nossa forma de enxergar as pessoas que tentam cometer suicídio de um forma mais empática. A medida que a série avança, Karofsky faz as pazes consigo mesmo, buscando acompanhamento profissional. Vale ainda mencionar que no episódio de tributo à cantora Whitney Houstoun (também na terceira temporada) a temática novamente vem a tona.

BANDSTAND Composto por Richard Oberacker e Robert Taylor, “Bandstand” estreou na Broadway na mesma temporada que o já falado ‘Dear Evan Hansen’ e outros sucessos como ‘Natasha, Pierre & The Great Comet of 1812` e ‘Come From Away’. A sinopse do musical gira em torno da formação de uma banda com veteranos de guerra para ganhar um concurso nacional. Aparentemente, mais um musical americano exaltando as big bands americanos e o patriotismo, mas o musical se propõe a abordar a forma como esses ex-soldados retomam suas vidas após a II Guerra Mundial, retratando também sobre a perspectivas das viúvas, esposas e mães.

A música típica da década de 40 e as coreografias intensas de Andy Blankenbuehler não conseguem ofuscar a seriedade com que o estresse pós traumático é retratado. Em uma das cenas mais dramáticas dos musicais, o público visualiza cada um dos veteranos com seus respectivos traumas emocionais. Em “Welcome Home (Finale)” a viúva e vocalista da banda Julia (interpretada por Laura Osnes) canta sobre a volta de um soldado da guerra para os braços de sua família, mas sem romantizar ou esconder as sequelas: dores crônicas, a busca do alívio no álcool e nos comentários sarcásticos, temperamento explosivo, falta de confiança, doença mental, comportamento obsessivo compulsório (OCD), negação, depressão, síndrome de culpa do sobrevivente e insônia.

A música, e o apoio dos companheiros de banda, acaba sendo uma das únicas formas desses veteranos exorcizar a bagunça emocional em que se encontram, especialmente numa época em que havia ainda muito estigma em se conversar sobre o quão prejudicial a guerra foi também para a saúde mental.

O DESPERTAR DA PRIMAVERA Além de tocar em assuntos tão polêmicos como relacionamentos abusivos e estupro, o rock musical que impactou a Broadway em 2006/07 também retrata o suicídio partindo da premissa de um jovem confuso em seus pensamentos internos.

Em “Spring Awakening” Moritz, o melhor amigo de Melchior, vive em um dilema quanto a descoberta de sua sexualidade. Ambientado na Alemanha ao final do século XIX , O medo do julgamento das pessoas deixa Moritz assustado quando reflete sobre seus sonhos eróticos isso somado ao fato de ele se sentir totalmente pressionado em obter sucesso acadêmico. Após seu pai o humilhar pelos seus fracassos na escola, Moritz tenta escapar da situação tentando uma fuga para fora do país e até mesmo cogita o suicídio. Apesar do musical não dizer explicitamente que o personagem sofre de depressão, ‘Don’t Do Sadness’ permite ao público compreender toda complexa jornada emocional e de aceitação que o personagem está passando: em um discurso de negação, Moritz abraça a tristeza e atira em si mesmo.

JAGGED LITTLE PILL Com músicas compostas por Alanis Morissette e Glen Ballard, esse musical estreou ano passado na Broadway. “Jagged Little Pill” conta a história de MJ, uma mulher que sofreu abuso sexual em sua juventude e carrega esse trauma na vida adulta, se valendo do uso constante de pílulas anti depressivas para recobrar sua sanidade.

Quando uma amiga de sua filha adolescente Frankie é vítima de um estupro, MJ é engatilhada pelas sombras de seus passados, tendo até mesmo uma tentativa de suicídio pela ingestão excessiva de comprimidos. Com uma trama que entra em detalhes sobre a temática da depressão, no musical, outros debates sobre o abuso sexual, como punição e julgamento e a necessidade do diálogo para cura interior são tratados.

O MÉDICO E O MONSTRO Inspirado no clássico da literatura de mesmo nome escrito pelo escocês R.L. Stevenson, o musical “Jekyll and Hyde” pode ser entendido como uma metáfora para a discussão do Transtorno Bipolar.

A história do médico, que ao realizar experimentos em si mesmo torna-se seu alter ego Hyde, foi inspirado em um sonho do autor escocês. Mas muito mais do que ficção, a obra diz muito sobre psicanálise, sendo estudada até os dias de hoje. Já o musical se inicia com uma cena onde Jekyll lamenta a loucura de seu pai, sem dizer ao certo do que se trata. Ao se tornar Hyde, Jekyll apresenta sintomas que, de uma forma exagerada e romantizada, são semelhantes ao Transtorno Bipolar, mostrando diversas personalidades de um mesmo ser humano.

AMERICAN IDIOT O espetáculo com músicas compostas pela banda norte-americana Green Day traz em sua temática o sentimento de impotência em uma geração de jovens insatisfeitos com o cenário político em que vivem.

Uma de suas principais tramas é de Will, um jovem que planeja sair de sua pequena cidade suburbana e se mudar para uma cidade grande junto de seus amigos, mas ao receber a notícia de que sua namorada, Heather, está grávida, ele acaba mudando o seus planos. Ao mesmo tempo que o personagem acaba ficando sobrecarregado com as novas responsabilidades, ele já não tem mais força e motivação nenhuma para sair de seu sofá, e nos compartilha um pouco dessa sensação na tocante música 'Give Me Novacaine'.

Listamos aqui alguns exemplos de como essa temática tem estado presente em diversos musicais. Poderíamos ainda estender a lista com os delírios emocionais de Norma Desmond em “Sunset Boulevard” ou com a solução fatal encontrada por Kim em “Miss Saigon”, mas o ponto principal aqui é dizer que precisamos falar (e por que não cantar) sobre isso!

Muitos desses musicais tem o apelo jovem, e a estatísticas apontam que infelizmente o suicídio é mais comum em jovens e adolescentes. Falar sobre suicídio de forma responsável não impulsiona ninguém a cometer tal ato, mas abre o cenário para a informação, para a busca de ajuda profissional e a cura de feridas. Segundo dados da ABP, 96,8% dos casos de suicídio registrados no país estão ligados com doenças mentais que podem ser tratadas.


Caso conheça alguém (ou até mesmo você) que apresente sintomas relacionados à problemas mentais e que está tendo alguma dificuldade, procure ajuda pelo Site Oficial da Campanha.

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