Entrevista com Victoria Ariante, diretora de Se Essa Lua Fosse Minha

27/6/2019

 

Victoria Ariante é atriz, cantora, bailarina, graduada em Artes Cênicas pela Escola Superior de Artes Célia Helena e em Teatro Musical pela 4Act Performing Arts. Atualmente, comanda a direção do espetáculo autoral brasileiro "Se Essa Lua Fosse Minha", que está em cartaz no Teatro do Núcleo Experimental, em São Paulo. Conversamos com ela para saber mais sobre sua carreira e sobre o espetáculo, confiram:

 

Victória, o seu trabalho como diretora é recente, mas sabemos que no Teatro Musical você já está há algum tempo. Conte pra gente um pouco da sua trajetória.

Comecei a dançar ainda pequena, por aquela vontade dos pais de colocar a filha no ballet. Paralelamente, comecei a frequentar aulas livres de teatro. Fui crescendo e entendendo que este era o caminho que queria escolher. Não hesitei em prestar vestibular para artes cênicas, deixando a dança um pouco em segundo plano. Após a graduação, na Escola Superior de Artes Célia Helena, me aproximei da linguagem do teatro musical, a qual eu poderia recolocar a dança e explorar a técnica vocal. Daí então, me formei no curso técnico de teatro musical da 4Act Performing Arts, época em que também vivenciei workshop de imersão em Nova Iorque. Paralelamente, segui estudando interpretação com diferentes formadores.

 

Em "Cargas D'água - Um Musical de Bolso" além de cover da personagem Pepita você também esteve como assistente de direção. Quais foram os maiores desafios deste musical?

O processo do Cargas D`água, como todos deveriam ser, foi de muito aprendizado. Estávamos todos envolvidos e empenhados, ainda sem saber quaisquer desdobramentos possíveis. Também não conhecia o Vitor Rocha, por exemplo, então precisávamos estabelecer uma relação e cumplicidade. Mas é claro, falar de teatro musical autoral e independente sem associar à parte financeira, é inegável. Por outro lado, nos força a não nos apoiar em quaisquer outros aparatos e a fazer com que o espetáculo ganhe potência por si só: texto, atuação e encenação. Entender a direção de movimento também como parte da dramaturgia foi outro desafio: como ocupar este espaço sem que se torne apenas o virtuosismo de uma coreografia? Mas o que nos auxiliou foi a abertura ao ouvir e as possibilidades de experimentação.

 

Como surgiu o convite para dirigir "Se Essa Lua Fosse Minha”?

Após o Cargas D`água, eu e o Vitor nos aproximamos e percebemos que tínhamos afinidades artísticas. Conversamos bastante sobre o roteiro do Se Essa Lua Fosse Minha e passeei por algumas funções antes do Vitor me convidar para um café e dizer: "pensei e gostaria que você dirigisse o espetáculo. Você topa?” Lembro que não tive dúvidas. Disse: “topo. Minha vontade é proporcional ao meu medo”. Mas é com medo que vai, né? Assim já tínhamos cantado em Cargas D’àgua e, assim, seguimos.

 

Pra você, quais as maiores diferenças de se fazer musical 100% brasileiro?

O primeiro ponto, pra mim, é se fazer algum inédito, com todos os riscos que isso traz. É claro que se estamos falando de “Calabar” ou “Gota D’àgua”, por exemplo, temos o conforto (e a carga de exigência) que o nome de Chico Buarque carrega. Porém, quando se faz algo completamente desconhecido, não há nenhum indício de que aquilo pode funcionar. É também uma paciente conquista acerca do seu público, uma vez que ninguém ouviu as canções anteriormente ou assistiu vídeos antes de tomar a iniciativa de ir ao teatro. Além disso, nossos dois últimos trabalhos foram realizados de modo independente, o que também implica em não ter verba para execução e/ou divulgação. Aí precisamos contar com o velho e bom “boca a boca”. Também é preciso se alimentar de muitas referências, sobretudo brasileiras e das mais variadas: na pintura, na literatura, na música, na fotografia, e por aí vai. Porque, ao se fazer um musical brasileiro, nós somos nossa fonte e precisamos nos abastecer e, principalmente, nos apropriar disso. Se não, continuamos falando de teatro musical americano, porém feito no Brasil.

 

"Se Essa Lua Fosse Minha" fará uma curta temporada, o que podemos esperar da Victória ainda em 2019?

Se Essa Lua Fosse Minha reverberou de modo intenso pra todos nós envolvidos. Há a vontade de se fazer mais temporadas, mas ainda tudo no campo nebuloso que o teatro independente permeia. Além disso, há o desejo e projetos encaminhados que entremeiam teatro e literatura para crianças, aliados à idealização e direção. Também estou empenhada na retomada da dança, mesclando com o audiovisual e com profissionais que admiro e que também estão dispostos a experimentar e se lançar.

 

Qual personagem você sonha em interpretar no palco?

Gota D`água é uma das obras que mais admiro. Logo, embora a direção tenha me estimulado, a personagem Joana, para mim, ainda é potente o suficiente para chacoalhar qualquer atriz e tirá-la do eixo, sem falar do quanto o texto, ainda hoje, comunica e revela o país. Qualquer personagem de Nelson Rodrigues também me instiga pelo universo que as rodeia e as influencia, como também Diana, de Next to Normal. Creio que qualquer personagem que coloque o feminino no ato da fala é, por si só, transgressor e corajoso, como no próprio Se Essa Lua Fosse Minha.

 

Por que todos devem assistir "Se Essa Lua Fosse Minha”?

Sem qualquer tipo de vaidade, o espetáculo têm forças que se somam: um texto poético e político de modo concomitante, músicas arrebatadoras e atores que dão o melhor de si em função do coletivo. Penso que o que mais me encanta é perceber o quanto as sutilezas afetam e, mais que isso: de diferentes modos. Ver, após as sessões, que os espectadores saem tocados por diferentes fatores, é bonito. Não deixa a obra unilateral e nos faz pensar na totalidade do humano, ao mesmo tempo em que nos atenta pro fato de que algumas discussões ainda permanecem e são conflituosas. Ainda respondendo a pergunta: assistir ao Se Essa Lua, pra mim, é sinônimo de partilhar de um ato de amor, do modo mais transgressor que o amor, e o teatro, podem, e devem ser.

 

Serviço  
Teatro do Núcleo Experimental (Rua Barra Funda, 637. Barra Funda. São Paulo/SP) 
Terças e quartas, às 21h  
Temporada até 10 de julho 
Ingressos R$60,00 (inteira) e R$30,00 (meia)  
Vendas pelo site Tudus.com ou na bilheteria do teatro 1h antes de cada sessão  
Classificação: 12 anos  
Lotação: 60 lugares

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