Precisamos Falar de My Fair Lady

14/10/2018

 



A vontade de escrever esse texto sempre me perseguiu, mas por ser um assunto um tanto polêmico, tentei evitar. Mas a verdade é: se você é mulher, feminista, como eu, deveria aplaudir de pé esse texto que vem para defender nossa causa. Então, se tudo são flores, por que tanta gente acha que esse espetáculo é machista e não deveria mais ser reproduzido nos dias de hoje?

 

Entendo que as vezes possa acontecer essa confusão, mas é a frequência que ela ocorre que me assusta. Sem querer ofender ninguém, mas o que está faltando é apenas um pouco de interpretação de texto.

 

O espetáculo deixa bem claro quem é sua protagonista, quem devemos torcer por ela até o final, e essa é Eliza. É ela, e não o Higgins, que tem todas as características, na construção desse texto, de protagonista: é ela quem canta o "I wish song" (que no caso é a "Wouldn't be loverly?"), é ela quem sofre uma grande mudança durante o espetáculo (e não estamos falando do sotaque ou forma de se vestir dela, aqui estamos falando de uma mudança de atitude, de posicionamento).

 

Essa personagem, por mais frágil que possa parecer no início (que ao analisar com mais calma, percebesse que desde o início ela já tem muita determinação), cresce de tal forma durante o musical, independente, acima do julgamento de Higgins, e sem se sujeitar mais às condições impostas por ele. Uma figura feminista em todos os aspectos, e defendida pelo espetáculo dessa forma.

 

Seguindo essa estrutura na qual Eliza é a protagonista, o Higgins aparece apenas como antagonista, aquela pedra no caminho de Eliza,de alguma forma culpado por essa transformação, falando de uma forma simplificada: o vilão. Pra quem foi criado com o bom e velho Disney, sabe que o discurso do vilão é aquele que deve ser evitado, o modelo do que não seguir.

 

Pois bem, onde aparece o machismo em My Fair Lady? Na fala de Higgins, obviamente. Suas falas são escrachadas, machistas e babacas num nível que qualquer um que assista, com a mínima consciência, perceba. Não é um modelo a ser seguido, é colocado pelo musical justamente numa posição de alguém intolerante e, acima de tudo: errado.

 

Daí entra o argumento principal de quem entende tudo isso que foi dito, mas ainda sim aponta esse espetáculo machista: E o final? Se o espetáculo é realmente tudo isso que estou dizendo, por que raios que Eliza acaba voltando pro Higgins?

 

Sinceramente, não posso dizer que o machismo foi vencido por completo, o final é muito amplos, genérico, com milhões de possibilidades. Não se sabe o que de fato acontece após aquele abraço, se eles ficam cinco minutos ali e já brigam de volta, ou então se eles passam o resto da vida juntos.

 

Mas eu particularmente prefiro manter um ponto de vista otimista. É muito fácil simplesmente abandonar o machista e deixar ele continuar sendo machista sozinho. A grande transformação e beleza seria se Eliza, ao invés de simplesmente abandoná-lo, fizesse ele enxergar as coisas de uma nova maneira. É claro que, pelo ponto que ela evoluiu, ela jamais se sujeitaria novamente as atitudes babacas dele, mas não é por isso que ele não mereça uma segunda chance e uma oportunidade para mudar.

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