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#ANÁLISE Jesus Christ Superstar



Para começar a falar de Jesus Christ Superstar é necessário antes compreender a proposta de Andrew Lloyd Webber, o compositor da obra. Para isso, partiremos mencionando um verso o qual é repetida diversas vezes durante o espetáculo de Lin-Manuel Miranda, Hamilton, que relata a história de um dos Pais Fundadores dos Estados Unidos: History has its sides, who lives, who dies, who tells your story (numa tradução livre para o português “a história tem seus lados, o de quem vive, o de quem morre e o de quem conta sua história”).


Em Jesus Christ Superstar, Andrew Lloyd Webber propõe inicialmente romper com o maniqueísmo repetido por séculos pela interpretação dogmática do cristianismo, ao enfatizar o ponto de vista de Judas e Maria Madalena, e a relação dos dois com Jesus, ao narrar os últimos dias antes da crucificação.


Contexto


O espetáculo é uma ópera-rock composta por Andrew Lloyd Webber e com letras de Tim Rice, lançado a principio no formato de concept album, em 1970, que após se tornar um fenômeno mundial, chegou aos palcos da Broadway em 1971, em uma breve e polêmica temporada, e em 1973 ganhou sua primeira versão cinematográfica.


O musical, simultaneamente a Hair, vem em um movimento para romper os padrões tradicionais do Teatro Musical conhecido até então, com uma influência do movimento hippie, em um momento no qual apenas existia uma formula única, um gênero único de música para esse tipo de espetáculo. Pela primeira vez a música escutada pelos jovens (que no momento seria o rock), e suas discussões ganharam espaço nos palcos da Broadway.


Num momento o qual o mundo se dividia entre dois blocos, um liberal e outro socialista, nascia uma juventude que se rebelava contra essa ordem mundial regida por guerras e competições, ainda com resquícios do trauma da Segunda Grande Guerra e temendo por uma terceira e pior.


Esse movimento pela paz refletiu em toda uma nova cultura de protesto, especialmente nos Estados Unidos, denominada de hippie, a qual, no meio do teatro musical teve como maior exemplo a obra Hair. De forma menos explicita, Hair se utiliza da história de Cristo para espelhar o movimento que ocorria no momento, sendo Claude, o protagonista, um equivalente moderno de Jesus, o qual é sacrificado por se recusar a lutar na Guerra do Vietnã.


Já na Inglaterra, no mesmo período, Andrew Lloyd Webber compunha seu primeiro sucesso, Jesus Chirst Superstar, que vinha com uma sacada parecida com a de Hair, mas agora mais explicitamente a referência de Jesus, simbolizando esse movimento de jovens que buscavam a paz, muitas vezes perseguidos por isso, em um contexto de grande tensão política.


Sua estreia na Broadway foi rodeada por polêmicas, dois principais grupos religiosos fizeram protestos na porta do teatro, o primeiro e mais obvio foram cristãos, que não aceitaram essa nova leitura da história, alegando que o espetáculo ofendia e ridicularizava sua religião. E o segundo grupo foi de judeus, por razões que logo serão comentadas. Por mais distante que essa ideia de censura da arte por meio da religião possa parecer, os protestos se repetiram na estreia da montagem brasileira em 2014, quando um grupo cristão tentou impedir que o espetáculo estreasse.


Descontruindo a Visão Cristã


O cristianismo se baseia em uma visão maniqueísta, na qual só existem duas opções, ser bom ou ser mau. Toda a história de Cristo é contada e recontada pela igreja para enfatizar essa perspectiva, assim servindo à sua função dogmática, com tal ponto de vista funcionando de acordo, por isso é tão repetido. Entretanto, em uma abordagem histórica, não se pode tomar como verdade absoluta o que contem em apenas um documento, como o cristianismo se utiliza da bíblia.


Da mesma forma que a igreja escolhe o que contar do que entende pela leitura desses testemunhos, Jesus Christ Superstar propõe uma nova visão, recheada de questionamentos sobre a noção de verdade concreta implícita no cristianismo e a visão política da religião, em mente que nenhum símbolo é neutro, e enfim busca a humanização de cada personagem.


O maior símbolo desse maniqueísmo proposto pelo cristianismo é a oposição entre Jesus e Judas. De um lado o salvador, representando todo o bem divino, e do outro, o traidor, “assassino”, que deve ser julgado por toda uma eternidade por um erro.


Jesus Christ Superstar entra de contramão a essa proposta ao enfatizar uma relação de amizade entre ele e Jesus, quase fraternal. Lembrando o público que antes de mais nada, Judas foi um dos doze escolhidos, e houve razão para tal. Obviamente, essa relação é afetada pela situação política delicada em que são inseridos, mas ainda sim é suficientemente forte para Judas tirar sua própria vida, em uma das cenas mais densas da obra.


Em seu primeiro solo, o qual abre o espetáculo, Heaven on Their Minds, (apesar de em algumas interpretações tomar um aparente tom agressivo), mostra um Judas, que mesmo descontente com a situação, como um conselheiro, tentando avisar Jesus de que algo de errado está acontecendo, a situação está saindo de seu controle. Posicionando-se de forma que apenas alguém que Jesus confiaria poderia se posicionar.


Além de Judas, é possível também encontrar no texto uma interpretação de um Pilatos piedoso, que não teve a mínima intenção de machucar Cristo. Visão de texto incorporada primeiramente por Fred Silveira, o qual inclusive ganhou o Prêmio Bibi Ferreira (maior premiação do teatro musical brasileiro) na categoria de Melhor Ator Coadjuvante, em 2014, pela sua brilhante performance, onde fez uma leitura de personagem mais humanizada, e menos cruel.


De forma mais sutil, essa interpretação foi repetida na produção transmitida pelo canal norte-americano NBC, na páscoa de 2018, onde novamente foi percebida uma sutileza do texto o qual mostrava Pilatos de forma fragilizada, agindo apenas por uma pressão externa e enfatizado por Jesus o fato de Pilatos não ter poder algum na situação.



Além da Quebra do Maniqueísmo


Em uma visão mais aprofundada da obra, é possível encontrar, além da aparente quebra do maniqueísmo, uma separação de dois lados. Talvez Judas ou Pilatos não seja os grandes vilões nessa história, mas se engana quem acredita que Andrew Lloyd Webber isentou completamente a culpa de qualquer personagem.


Tal posição fica ainda mais evidente ao observar os figurinos na grande maioria das produções. Jesus, como já é de tradição, está sempre de branco, Judas, Maria Madalena e os outros apóstolos, em um meio termo, usam cores vivas, ou cinza, muito associado ao Judas é a cor vermelha, e à Maria Madalena é o amarelo. Já em contraposição a Jesus, fica a figura do governo, representado pelos judeus Caiaphas e Annas, que sempre são representados em preto.


Ao tirar a culpa de Judas, ela cai completamente sobre as figuras de poder já citadas, que desde suas primeiras aparições demonstram um grande interesse em eliminar Jesus, ao interpretar uma música a qual o título já fala por si: This Jesus Must Die.


Isso reflete a insatisfação e o questionamento que os jovens da época tinham em relação ao governo, e figuras no poder em geral. Posicionando quem deveria nos proteger como os verdadeiros culpados pela destruição e a condenação da sociedade, ao reprimir um movimento que tem como acima de tudo, a busca pela paz.


Em uma visão ainda mais ampla, seria possível enquadrar o próprio Deus como essa figura de poder culpada por todos os acontecimentos narrados no musical. Retirando trechos de dois grandes solos, um de Jesus e outro de Judas, em que falam diretamente com Deus, ambos questionam os seus atos, mostrando que não querem fazê-los, entretanto são obrigados por algo maior. E coincidentemente ou não, são os únicos momentos do espetáculo no qual os personagens se dirigem diretamente a figura de Deus. O primeiro momento é de Jesus, que ocorre na música Gethsemane, onde ele afirma:

[…] Why then am I scared to finish what I started;

What you started - I didn't start it;

God, thy will is hard;

But you hold every card;

I will drink your cup of poison […]


Na morte de Judas, quando é nítido o arrependimento do personagem, em meio a uma mistura de sentimentos, como uma epifania, Judas para de se culpar por seus atos e percebe que foi Deus quem o colocou naquela situação.


[...] I've been used;

And you knew all the time;

God, I'll never ever know;

Why you chose me for your crime;

For your foul bloody crime;

You have murdered me! […]

Um Jesus Revolucionário


Mais do que o poder religioso de Jesus, é enfatizando durante todo musical o poder político dele. Sendo esse argumento político utilizado por Caiaphas, Rei Herodes e Pilatos para matar Jesus.


Simão, em seu solo Simon Zealotes/ Poor Jerusalem, apresenta, em números, dados, o poder que Jesus está alcançando, através de seus seguidores. Simão utiliza esse argumento para colocar Jesus na posição de um líder de uma revolução. No qual, inclusive, no filme de 2000, Simon, interpretado por Tony Viscent, veste roupas militares e o povo aparece pegando em armas para lutar ao lado de Jesus.


A resposta automática da Jesus para essa manifestação violenta é de desaprovação. Entretanto, a cena é importante para mostrar come a situação foge de seu controle, mesmo que utilizando o nome de Jesus para justificar sua luta e baseando em alguns de seus ensinamentos, Jesus não tem controle do impacto de suas palavras sobre a humanidade, mesmo naquele momento.


Essa cena também possui relevância ao mostrar que mesmo no século I, já havia movimentos com um teor revolucionário. Apesar de movimentos desse gênero ganharem destaque apenas no século XVIII, quando a ordem mundial se transformava completamente, buscando liberdade em relação a um governo tirânico, o pensamento já acompanhava o homem, mesmo que em uma menor escala, durante muitos séculos.




Outra passagem interessante é na cena final do espetáculo, na música Superstar, enquanto Jesus é crucificado e tem um delírio antes de morrer. Por ser uma cena que foge do plano da realidade, ela abre espaço para questionamentos do autor. Por meio de Judas, ele se pergunta qual seria o impacto de Jesus nos dias de hoje, onde a capacidade de comunicação é incomparável com a da época.


[…] Every time I look at you I don't understand

Why you let the things you did get so out of hand.

You'd have managed better if you'd had it planned.

Why'd you choose such a backward time in such a strange land?

If you'd come today you could have reached a whole nation.

Israel in 4 BC had no mass communication. […]


Atemporalidade


Uma das maiores forças do espetáculo é a sua atemporalidade. Assim como a história na qual foi baseado, ele continua relevante até os dias de hoje e já pode ser considerado um clássico do teatro musical, mesmo sem ter ainda alcançado nem 50 anos de sua estreia na Broadway.


Uma forma de perceber essa característica é através da mudança de opções de direção com o passar das décadas. A forma mais comum de direção atual é descaracterizando completamente o tempo em que o espetáculo se passa, com uma mínima referência ao tempo de Cristo, mas priorizando roupas básicas que podem ser atreladas a diversos momentos históricos. Essa foi a escolha da montagem brasileira de 2014, e pode ser identificado também no revival da Broadway de 2012, e na produção da NBC de 2018.


Outra opção de direção foi fazer com que a história se passasse no momento atual da produção, fazendo com que o anacronismo se tornasse um charme da produção. No arena tour que aconteceu em 2012 no Reino Unido, além de Jesus e todos os outros personagens ganharem uma caracterização hipster, foram adicionados diversos elementos da nossa cultura atual, como jornalistas com câmeras e equipamentos para entrevistar Jesus, a associação dos judeus com o iluminate, e a colocação de Herodes como um apresentador de um programa de auditório.

Em tempos de intolerância e tendência ao autoritarismo, Jesus Christ Superstar é o espetáculo para continuar sendo montado pelo mundo, assistido e discutido. Mais que mais uma disseminação religiosa, o musical tem um grande poder em questionar o sistema em que vivemos, mesmo que usando para isso um contexto que aparenta estar distante de nossa realidade.

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