Especial Wicked – A Origem do sucesso que desafiou a Gravidade

9/3/2016

A espera finalmente acabou! Na última sexta-feira dia 4 de março, estreou oficialmente o musical ‘Wicked’, nova produção da Time For Fun. Em cartaz no Teatro Renault em São Paulo, o espetáculo tem tido duas semanas intensas de previews e agora abre as portas para o público geral prometendo ser o grande destaque da temporada paulista em 2016, já que a fama do musical o procede e cria boas expectativas no público. Chamado por muitos de “o musical da década”, ‘Wicked’ sem dúvidas é um marco dentro da história do Teatro Musical e o Backstage Musical vai ao fundo contar um pouco da origem do musical e entender o porquê de sua boa reputação.

 

Como já é de conhecimento de muitos, o musical teve sua estreia oficial na Broadway em 2003 após um período de try outs em San Francisco. Na época das prévias, a crítica e público tiveram opiniões dividas sobre o espetáculo, gerando certa insegurança para a transferência do musical no circuito Broadway. Após alguns acertos no material e no elenco, a temporada em Nova Iorque fez grande sucesso e de fato, arrebatou público e crítica. ‘Wicked’ foi indicado em 11 categorias no Tony Awards e no Drama Desk Awards, vencendo 3 categorias no Tonys e 6 no Drama Desk, e também levou o prêmio de Melhor Álbum de Teatro Musical e Live Shows no Grammy. Todo sucesso pode ser explicado pelas inúmeras variáveis das quais o show é composto: Um elenco acertado, cenários grandiosos, figurinos exuberantes, uma trilha sonora contagiante, efeitos especiais de tirar o fôlego e muito mais.

 

Além de toda competência técnica e artística que fizeram ‘Wicked’ ser o que é, muitos atribuem o sucesso do musical há outros importantes fatores, sendo um deles o contexto histórico em que a produção foi montada. Ao maior estilo Glinda, faremos uma pequena volta no tempo: Na década de 80, uma série de grandes produções de musicais chegou a Broadway encabeçada pelo inglês Cameron Macintosh, produtor por trás de grandes fenômenos de bilheteria como ‘O Fantasma da Ópera’, ‘Cats’, ‘Os Miseráveis’ e ‘Miss Saigon’. Com musicais bastante superlativos, Macintosh definiu o que seria as características das novas produções dentro do circuito Broadway. Na década seguinte, sob advento da globalização, as franquias musicais ganharam força e criou-se esse estigma dos musicais com cenários que se movem, figurinos riquíssimos, efeitos especiais e longas temporadas. Essa conjuntura definitivamente posicionou Nova Iorque como o polo de produção de Teatro Musical a nível internacional e “Broadway” passou a ser entendido como um selo de qualidade, como uma marca conhecida no mundo inteiro tal qual Coca-Cola ou Nike.

 

A década de 90 também foi marcada pela febre dos revivals que ganharam essa estética de superprodução com a qual o público foi se acostumando, e para acompanhar essa demanda, muitos teatros foram reformados. Vieram então os musicais familiares, com destaque para as produções da Disney, sobretudo ‘O Rei Leão’, que logo se tornou um marco cultural. No entanto, no princípio dos anos 2000, o ataque do 11 de setembro em Nova Iorque trouxe um impacto negativo para a produção de Teatro Musical. Houve queda no turismo na cidade e era arriscado produzir algo tão grandioso, além disso, a temática dos musicais preocupava os produtores. Espetáculos como ‘Os Produtores’, ‘Mamma Mia!’ e ‘Urinal’ estrearam em 2001 e faziam temporada sobre a sombra de uma possível rejeição, mas a estreia de ‘Hairspray’ no ano seguinte mostrou que o público estava se interessando novamente pelas comédias, conquistando novos públicos.

 

Foi nesse contexto que ‘Wicked’ chegou aos palcos do Gershwin Theatre em 2003, sob a incerteza da aceitação do público local que aos poucos estava se reabituando a frequentar os teatros e de um turismo que estava ainda se reerguendo. O risco era grande: montar um espetáculo sem ter certeza de que ele teria boa receita de bilheteria, era a receita para o prejuízo que ninguém poderia correr. Somado a isso, Joe Mantello estreava como diretor de musicais, assim como Marc Platt assinava sua primeira produção de musical na Broadway. O compositor (e idealizador do musical) Stephen Schwartz já era conhecido do público por ‘Godspell’ e ‘Pippin’, mas desde sua colaboração como letrista em filmes da Disney, não emplacava grandes sucessos. A estreia de ‘Wicked’ em 30 de Outubro (curiosamente um dia antes do Dia das Bruxas) foi uma grata surpresa ao público e levou o assombro dos últimos anos para bem longe, o que no fim, foi bom para as demais produções em cartaz.

 

Dentro do time criativo havia uma vontade enorme de acertar, no entanto o risco era grande. Schwartz viu potencial na obra de Gregory Maguire ainda em 1995 e buscou apoio de Platt junto da Universal Studios para a produção do musical, entre a compra dos direitos até a estreia quase dez anos anos se passaram até que o projeto se concretizasse. 'Wicked' fugiu da habitual tradição de workshops para a concepção do espetáculo: foram feitas leituras, sem encenação e logo menos já viram a necessidade de um diretor e pensaram em numa produção piloto fora de Nova Iorque. O investimento milionário por trás do musical foi visto em toda sua estética e efeitos especiais impressionantes que arrebataram a plateia que ia crescendo aos poucos pelo boca a boca, boas críticas, agradando tanto o tradicional publico frequentador de musicais, como plateias mais jovens.

 

Vale lembrar também que o fato de o musical ser protagonizado por duas mulheres chamou muita atenção: o romance estava em plano secundário (terciário?) e isso foi importante para conquistar uma série de fãs adolescentes e jovens adultas, que conseguiam se identificar com aquela amizade ali retratada. Curiosamente, os dois grandes sucessos anteriores a 'Wicked', 'O Rei Leão' e 'Hairspray', traziam em seu enredo histórias onde o romance não era o principal mote, e nos três casos, há um pano político por trás das ações e status quo e desenrolar da trama. Mas ‘Wicked’ não foi apenas a melhor resposta ao público diante do marasmo, o musical fez sucesso por ter trabalhar um forte ícone da cultura estadunidense: ‘O Mágico de Oz’.

 

A série de livros de L. Frank Baum está para a literatura infantil americana como ‘Alice’ está para a literatura inglesa, sendo um clássico que tem se perpetuado por gerações. O filme de 1939, produzido pela MGM se tornou um poderoso ícone da cultura pop e hoje, mais de 70 anos após sua estreia, é ainda muito comum encontrar itens de merchandise do filme. Os personagens estão presentes no imaginário popular, Judy Garland foi imortalizada como Dorothy e, a canção “Over the Rainbow” ganhou espaço no cancioneiro internacional. Inspirado nesse universo é que o escritor Gregory Maguire, que já tinha reescrito outros contos de fada, escreveu o livro que inspirou o musical.

 

 

Outros recontos de ‘O Mágico de Oz’ já haviam surgido, como o filme-musical ‘The Wiz’, estrelado por Diana Ross e Michael Jackson, mas não causaram o impacto de ‘Wicked’. Isso porque a obra de Maguire é uma verdadeira redenção de uma das vilãs mais emblemáticas do cinema e literatura, escrita numa época em que não era comum se repensar em outro ponto de vista das histórias já consagradas. Stephen Schwartz gostou tanto da obra que resolveu apostar na ideia, baseando livremente no livro para recontar a história tão querida do público sobre outra ótica. De maneira bem direta, o que Maguire fez, foi um fan fiction (ponto de vista não oficial de uma história já conhecida do público) bem escrita que alcançou certa popularidade. Interessante pensar que tanto no filme da MGM, quanto no musical da Broadway a narrativa é bem diferente da contida nos livros. Curioso ainda pensar que em ambos os casos, a repercussão midiática do Filme e do Musical superaram a da obra literária que os inspiraram, um exemplo disso é o fato que no original, os Sapatinhos são de prata, não de Rubi como no filme, algo que ainda é desconhecido por muitos.

 

Talvez nós brasileiros não consigamos entender o que essa mudança de foco na história tenha significado pelo fato de ‘O Mágico de Oz’ não está tão arraigado na nossa cultura como está na cultura dos americanos: Depois do lançamento do primeiro livro, Baum ainda lançou outras sequências literárias e o filme, mesmo sendo uma produçao antiga é passado de geração a geração, conquistando sempre novos fãs. Até então, nenhuma adaptação do filme musical tinha feito tanto sucesso na Broadway. E foi impressionante ver uma fanfic que inocentava a perversa vilã conquistar o público, com o respaldo de uma megaprodução caprichada. De fato, o musical ‘Wicked’ é um caso curioso e sua popularidade se equipara com a do fenômeno cultural que o gerou, a ponto de conquistar seus próprios fãs, que se auto intitulam “Wickers” que se dedicam de maneira frenética a assistir, colecionar e compartilhar todo tipo de informações sobre o musical no mundo afora.

 

Para Schwartz, a leitura do romance de Maguire durante as férias foi o seu bilhete de ouro para algo que consolidaria sua carreira. O musical estreou num momento oportuno: a junção de um contexto em que as pessoas ansiavam por um grande espetáculo com a desconstrução de um ícone tão forte, resultou em um dos marcos da história do Teatro Musical, que fez uma nova geração de pessoas se interessarem por musicais, além de inspirar novos produtores a romper barreiras criativas e paradigmas de crise em prol de um entretenimento de qualidade. ‘Wicked’ permanece em cartaz até hoje na Broadway e também na West End londrina e tem feito grande sucesso por onde passa e agora, é a nossa vez de deixar se encantar pela história de Glinda e Elphaba: O Brasil vai ter a oportunidade de ver um dos maiores blocksbusters da Broadway e entrar na rota das esmeraldas, sendo a primeira montagem de ‘Wicked’ na América Latina e a primeira tradução para o português.

 

 

Baseado em: KANTOR, Michael. Broadway: The American Musical. New York, Bulfinch Press, NY.2004.

Defying Gravity - Wicked Documentary. Disponível no YouTube.

 

 

 

 

Please reload