Uma Maneira diferente de Ver e Ouvir Musical

18/6/2015

Recentemente, contamos aqui no Backstage Musical, sobre iniciativas solidárias das produções em Teatro Musical ao redor do mundo, apresentando um lado humanitário e beneficente que a arte pode proporcionar. Porém, há ainda outro fato interessante a ser apresentado: A acessibilidade dentro de espetáculos.

 

Acessibilidade, de maneira bem simples é a capacidade de um produto ou serviços dialogar com os diferentes tipos de público consumidor/usuários tendo em conta as limitações físicas e/ou intelectuais das pessoas. É o caso da plataforma de elevação dentro do ônibus, a rampa da acesso a cadeirantes, o piso tátil para pessoa com deficiência visual em algumas calçadas e tantos outros recursos que vemos hoje em dia. Mas quando falamos em teatro (especialmente dos musicais) de que forma que o entretenimento pode ser acessível a todos? Mais do que a acessibilidade física dos espaços de entretenimento e teatros, é necessário pensar na possibilidade de compreensão do espetáculo pela plateia.


Pensando nisso, o Theatre Development Fund (TDF) nos EUA desenvolveu um programa que possibilita que pessoas com alguma deficiência de mobilidade, auditiva e visual possam compreender em sua totalidade qualquer espetáculo. O Chamado TAP (TDF Acessibility Programs) atua nos EUA há mais de 35 anos e começou de uma maneira bem tímida, oferecendo descontos significativos para essas pessoas, serviços de legendas, assentos mais próximos do palco, entre outros recursos. Para participar do programa bastava que as pessoas se cadastrassem por e-mail no TDF: De 400 inscritos no primeiro ano de funcionamento do programa, o mailing do TAP hoje já ultrapassa 12.000 pessoas.

Sessões especiais com serviço de audio-descrição e intérprete de língua de sinais nos musicais "Sister Act" e "The King and I"

 

Hoje, mais atuante e especializada, o TAP já fornece fones que descrevem as ações cênicas para aqueles com a visão comprometida, intérpretes de língua de sinais para aqueles com audição comprometida e até sessões especiais para crianças com Autismo, onde a dinâmica das performances é alterada com uma equipe especialmente treinada, de forma que tudo fique mais confortável para esse público. As ações dessa organização começaram muito antes de isso ser vigorado pela lei americana, mas ainda há dificuldades para que o TDF continue em atividade, devido o alto custo relativo as despesas extras de acessibilidade somado ao ingressos vendidos com desconto de mais de 50%. Felizmente, o TAP tem sido bem recebido pela comunidade e diversas produções abrem uma de suas previews exclusivamente para esse público.

 

Outro caso interessante é o do Deaf West Theatre, especializado em produções de teatro e musicais para pesosas com deficiência auditiva. As performances são completamente adaptadas e não excluem a fala e/ou musicas da obra original, introduzindo a língua de sinais dentro do espetáculo e coreografias. Além disso, a maioria dos atores que integram o casting do Deaf West Theatre  são de fato surdo/mudos, mostrando a inclusão desses como artistas. O trabalho do grupo chegou a ganhar um Tony Award em 2004 por Excelência em Teatro. Sua produção mais recente foi uma montagem do musical "Spring Awakening " no Bram Goldsmith Theater na Califórnia, e contava com Andy Mientus e Krysta Rodriguez trazendo um reforço ao elenco e notoriedade à produção.

Citado também na nossa matéria sobre o Lado B dos Musicais, o Projeto Educacional do SESI-SP em Teatro Musical, em parceria com o Atelier de Cultura, tem sido um importante formador de público no país através de seus espetáculos com ingressos a preço zero. Além de democratizar o acesso ao Teatro Musical através da bilheteria gratuita, há a preocupação de realizar sessões acessíveis: o musical "O Homem de La Mancha", por exemplo, teve sessões especiais com áudio-descrição e legendas eletrônicas.

 

Vale ainda citar, embora não seja Teatro Musical, a companhia "Os Inclusos e os Sisos - Teatro de Mobilização pela Diversidade", fundada pela humorista Tatá Werneck e amigos, com apoio da Escola de Gente. O diferencial da companhia está em oferecer, de forma gratuita espetáculos teatrais gratuitos totalmente acessíveis, com intérprete de LIBRAS, programa impresso para leitura em braile, áudio-descrição, vias de acesso de facilitada, legendas eletrônicas, sendo o primeiro grupo de teatro a focar suas apresentações totalmente inclusivas, trazendo temáticas como a sociedade inclusiva e discriminação social. O grupo teve apoio de empresas como a Oi e MRS Logística no custeio de suas produções sobre premissa da Lei Rouanet de Incentivo a Cultura e já se apresentou em mais de 14 estados pelo Brasil, totalizando em um público de mais de 30 mil pessoas

 

Há luta ainda é grande: infelizmente, não são todas as produções que tem recursos que possibilitem acessibilidade no Teatro Musical que prezam para que o espectador que tenha alguma limitação física e/ou intelectual tenha compreensão integral do conteúdo de algum espetáculo. Os exemplos citados nos mostram que é possível pensar em alternativas para democratizar o acesso aos diferentes públicos.

 

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