Últimos dias da temporada de Miranda por Miranda, em São Paulo.

20/4/2015

No dia 18 de janeiro de 2001, a atriz, cantora, diretora, autora, produtora e jornalista, Stella Miranda recebeu a ligação de seu amigo de longa data, Miguel Falabella. Na ocasião, Stella estava internada no Hospital Sírio Libanês, em São Paulo, para reparar os danos de um câncer que havia comprometido uma costela, um rim e o útero da atriz. Miguel, sem saber, convidou Stella para um projeto audacioso: viver Carmen Miranda no espetáculo ‘South American Way’. Passados 48 dias da cirurgia, Stella aceitou o convite de Miguel Falabella e essa foi a primeira vez que as vidas de Carmen e Stella se cruzaram nos palcos. 
 

Depois de temporadas de sucesso no Rio e em São Paulo, em 2009 e 2014, Stella se prepara para encerrar mais uma temporada em São Paulo com o espetáculo Miranda por Miranda, em que interpreta 26 clássicos da pequena notável. O espetáculo, de cerca de uma hora e quinze minutos de duração, tem arranjos e direção musical do experiente maestro Tim Rescala. Quem comanda o trio de instrumentistas é a maestrina e pianista Laura Visconti, acompanhada de Gustavo Sato (baixo) e Paulo Vicente (bateria). 
 

Desde a última temporada paulistana, pouca coisa mudou. Do elenco de apoio da temporada passada, continuam os veteranos no teatro musical Renato Bellini (Cabaret, Sweet Charity, A Gaiola das Loucas e Alô, Dolly) e Will Anderson (Les Miserábles, Avenida Q, Zorro – o musical, As Bruxas de Eastwick e A Madrinha Embriagada). Substituindo Luciano Andrey e Rogério Guedes e engrossando o coro das vozes masculinas graves do espetáculo, Cayo Caesar (O Rei Leão, Fedegunda e Peter Pan) e o novato Guilherme Moscardini.
 

Durante o espetáculo, Stella tem cinco trocas de roupa, com figurinos de Rita Murtinho. A direção de movimento e as coreografias ficam a cargo de Márcia Rubin. A tarefa ousada de selecionar apenas 26 músicas do repertório de 313 gravações registradas ao longo dos 20 anos de carreira de Carmen foi da própria Stella que, desde o período de sua doença, em 2001, mergulhou no universo e na vida de Carmen. “Carmen Miranda morreu aos 46 anos de idade com um espelho nas mãos, caída no chão de seu closet. Sempre me perguntei qual teria sido esse seu derradeiro olhar. Será que ela se debruçou sobre si mesma, feito Narciso, e se reconheceu na imagem e viu no espelho partido todos os momentos do seu tempo, existindo todos ao mesmo tempo? Já tendo vivido Carmen Miranda nos palcos tantas e tantas vezes, eu também me vejo refletida ali, nos estilhaços desse mesmo espelho” – conta Stella durante a peça.
 

O roteiro de Miranda por Miranda é recheado de músicas conhecidas de Carmen e outras menos lembradas. Abrindo o espetáculo musical, ‘Aquarela do Brasil’ (versão instrumental) e Na batucada da vida, gravada por Carmen em 1934, ambas de Ary Barroso, considerado pela cantora boca-suja, “um mineiro do caralho”. Seguindo o espetáculo, ‘South American Way’ (Al Dubin, J.Mchugh, com versão de Aloysio de Oliveira) é uma das mais conhecidas músicas do início da carreira de Carmen na Broadway, registrada no filme Serenata Tropical, de 1940.

O espetáculo traz na sequência uma série de gravações do ano de 1938: Pensão da ‘Dona Estela’ (Paulo Barbosa e Oswaldo Santiago), ‘Você nasceu para ser granfina’ (Laurindo de Almeida), ‘Salada Mixta’ (Ary Barroso) e ‘Paris’ (Alberto Ribeiro). De outro grande amigo de Carmen, o show apresenta ‘Good-bye’, ‘Camisa Listada’, ‘E o mundo não se acabou’, ‘Pra quem sabe dar valor’ e ‘Uva de Caminhão’, todas de Assis Valente. 
Embora tenha sido muito reconhecida nos Estados Unidos, levando a política da boa-vizinhança, e a cultura brasileira, até então, pouco conhecida, Carmen foi rechaçada no Brasil quando veio passar férias em 1940. O episódio das vaias no Cassino da Urca é retratado em forma de lembrança no espetáculo, cuja cena emenda na canção de Luiz Peixoto e Vicente Paixa, eternizada como uma resposta à sociedade brasileira da época em forma da canção ‘Disseram que voltei americanizada’.

 

Ainda no repertório de Carmen no espetáculo, ‘The Lady in The Tutti Frutti Hat’ (Warren e Robin), ‘Quem é?’ (Custódio Mesquita e Joracy Camargo), ‘Cachorro vira-lata’ (Alberto Ribeiro), ‘Linda Flor’ (Henrique Vogeler) e ‘Adeus, Batucada’ (Synval Silva). Embora o espetáculo seja uma homenagem a Carmen, Stella optou por colocar uma música que não foi gravada pela pequena notável: ‘Esposa modelo’ (José Maria Abreu) gravada com sucesso pela rainha do rádio Marlene em 1950.
 

Encerrando o espetáculo, um pot-pourri carnavalesco com ‘Cantoras do Rádio’ (João de Barro, Alberto Ribeiro e Lamartine Babo), ‘Balancê’ (João de Barro), ‘Eu dei’ (Ary Barroso), ‘Como vaes você’ (Ary Barroso), ‘Touradas em Madri’ (João de Barro) e ‘Chiquita Bacana’ (João de Barro).
 

Com o fim da temporada, só nos resta torcer por uma próxima temporada de Miranda por Miranda, relembrando outras músicas que ficaram eternizadas na voz de Carmen. Uma coisa que geralmente apenas os mais aficionados em Carmen sabem é que, além de inúmeras marchinhas de carnaval, a cantora foi responsável por gravar canções juninas e natalinas que a gente canta até hoje. Entre alguns exemplos, ‘Boas Festas’ (Assis Valente), ‘Recadinho de Papai-Noel’, ‘Chegou a hora da fogueira’ (Lamartine Babo) e outras.
 

A temporada da vez termina no próximo domingo, no Espaço Promon – Sala São Luiz, na Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, 1830. Os ingressos custam R$80,00, com meia-entrada para estudantes e idosos de R$40,00, e podem ser adquiridos pelo site Ingresso Rápido.

 

SERVIÇO:
Miranda por Miranda – últimos dias
Espaço Promon – Sala São Luiz: Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, 1830, São Paulo, Vila Olímpia.
Ingressos: R$80,00
Sábado, 21 horas, Domingo, 18:00.
Elenco: Stella Miranda, Renato Bellini, Will Anderson, Cayo Caesar, Guilherme Moscardini.
Músicos: Laura Visconti (piano), Gustavo Sato (baixo) e Paulo Vicente (bateria).
Arranjos e direção musical: Tim Rescala
Cenário: Hélio Eichbauer
Cenário Virtual: Samir Abujamra
Figurinos: Rita Murtinho
Direção de Movimento: Márcia Rubin
Direção e concepção: Stella Miranda
Realização: Pianíssimo Produções Artísticas.

 

 

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